Jorge Amado e os Capitães da Areia

Acabo de pagar uma das minhas dívidas mais vergonhosas com a literatura. Li “Capitães de Areia”, de Jorge Amado, em uma semana. O livro me prendeu tanto que não conseguia parar de ler e atravessava algumas madrugadas só para ficar na companhia de Pedro Bala e sua turma.

Incrível como um livro escrito em 1937 ainda fala tanto dos dias de hoje, das desigualdades sociais, da “adultização” de crianças, que sem ter quem lhes amparar, roubam e conhecem as malícias da vida mais cedo.

Engraçado que, na mesma semana em que comprei o livro, visitei a exposição de Jorge Amado no Museu da Língua Portuguesa (SP) e só então compreendi o verdadeiro tamanho deste escritor. Através de sua história, sua luta contra a ditadura, a filiação ao partido comunista e os diversos livros que resumem tão bem as realidades da Bahia, pude perceber os motivos que levaram a ser tão aclamado no Brasil e no mundo.

“Capitães da Areia” é um daqueles livros com história fácil, mas muito bem escrito. Em poucos momentos Amado dá ares inocentes às crianças que fazem parte do grupo de bandidos que percorrem a cidade de Salvador dando golpes e realizando furtos para sobreviverem. Em alguns capítulos, você pensa estar lendo a história de adultos, até que algum interlocutor lembra: “são apenas crianças”. Espertos, astutos e com boas doses de maldades, Pedro Bala, Sem-Perna, Volta Seca, Barandão, Professor, Gato, Boa-Vida e os outros desafiam as leis para terem liberdade em seu trapiche. Enganam, roubam, estupram, mas, se vêem como crianças em um carrossel, em que passam algumas noites brincando e vivendo, de alguma forma, a infância.

A descoberta do amor e do carinho de uma mulher vêm com a chegada de Dora, uma menina órfã que muda a rotina do trapiche e acerta em cheio o coração duro de Pedro Bala.

Por trás da história, os ideais socialistas, a luta de classes, a luta operária e o uso da violência para aplacar a ação dos “meninos bandidos”.

Todo este universo faz de “Capitães da Areia” um dos meus livros favoritos. Recomendo a leitura não só pela história, mas pela grandeza de Jorge Amado, já mostrada neste livro em que ele escreveu com apenas 25 anos de idade.

Para saber mais, recomendo a mostra no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, onde fiz a foto acima.

(Foto: Priscila Tieppo)

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Angeli: o reencontro

Cartunista desde os 14 anos, amigo de Glauco (já falecido) e Laerte, fã de Bob Dylan, paulistano e adepto do movimento Punk, quando este se tornou uma importante vertente do rock, Angeli é um dos caras mais renomados das HQs.

O reencontro com suas charges e traços inconfundíveis aconteceu esta semana, durante um passeio despretensioso na avenida Paulista. Me deparei com uma exposição só dele no Itaú Cultural – mostra que fica aberta até o dia 6/5, grátis.

Críticas políticas, tirações de sarro com a vida na metrópole, questão existenciais, todas muito bem-humoradas, são os destaques das obras de Angeli. Quem nunca ouviu falar em Rê Bordosa, Bob Cuspe, Wood & Stock e Skrotinhos?

Acho que muita gente não tinha ouvido falar. Foi só a mostra entrar em cartaz para as livrarias ao redor da Paulista terem seus estoques de livros de Angeli esgotados. Com muito custo, consegui comprar um exemplar de Wood & Stock – meus preferidos – e outro dos Skrotinhos.

Encontrar algo de Rê Borbosa – a quem Rita Lee emprestou sua voz, em 2006, em uma animação – era missão quase impossível. Em uma das entrevistas do cartunista, ele revela que a personagem foi feita ao som de Ângela Ro Ro.

Aliás, o fundo musical sempre ajuda a delinear os personagens, de acordo com ele. Bob Cuspe é feito a base de muito punk da banda Clash, e Wood & Stock, com Beatles e Bob Dylan.

Meu primeiro contato com Angeli aconteceu quando eu mal sabia ler. Meus irmãos compravam as revistas “Chiclete com Banana” e aqueles desenhos me chamavam muito a atenção. Tanto que chegava a levar bronca cada vez que rabiscava uma revista daquelas (desculpe, hermanos, era mais forte que eu!).

Com o passar do tempo, fui conhecendo mais, não só o Angeli, mas o Glauco e Laerte. Sempre fui fã de desenhos, de cartuns e charges. Acho que pra compensar minha pouca habilidade pra coisa, mal sei fazer bonequinhos de pauzinhos!

Humor inteligente, desenhos muito bem feitos, e uma boa dose de crítica fazem de Angeli um dos meus cartunistas prediletos. Obrigada por me lembrar isso, Paulista! Recomendo a mostra!

(Foto: Priscila Tieppo)

Dylan: livre, leve e gênio

Por Priscila Tieppo

As luzes se apagaram pontualmente às 20h, horário marcado para o início do show, no Credicard Hall, em São Paulo. Silêncio. Um minuto depois, as luzes do palco foram se acendendo lentamente para a explosão de palmas do público. Dylan, avesso à idolatria, mantinha-se ao lado do baterista e não avançou no palco até o fim da primeira música, Leopard-Skin Pill-Box Hat.

De chapéu branco, destacando-se em meio aos companheiros da banda – e que banda! -, Bob Dylan tratou de esquentar o público naquela noite típica de outono em um domingo paulistano. O forte ar condicionado perdeu o posto de “estrela”, para quem, como eu, agonizava com aquele frio e mal conseguia se mexer na plateia três (quase no teto) da casa.

O palco simples e a falta de cenário, talvez, não foram feito para os jovens que não largam os celulares, Ipads e afins, mesmo na hora do show. Não havia nada de atrativo visualmente, apenas uma luz azul e imagens “produzidas” pelos próprios músicos nas sombras refletidas na parede. Mas, auditivamente, o hipnotismo era mais que possível. Banda impecável e, além dela, a gaita sublime de Dylan. A voz do cantor não é, desde sempre, o chamariz para sua obra, mas, sim, a liberdade que ela transmite.

Fugindo do showbusiness, a lenda roqueira ainda conquista fãs no mundo inteiro fazendo apenas o que ele quer e como ele quer. Dylan é o cantor que sempre vai no sentido contrário e, mesmo assim, ao encontro de todos. Suas letras relatam situações em que é muito possível se identificar, seja falando de amor ou das questões cotidianas.

Tocando gaita, guitarra e teclado, Bob deixa claro sua dedicação à música. Vê-lo tocar e improvisar no auge de seus 70 anos, mudando músicas e desconstruindo seus próprios ritmos, é um desafio à mente. Quantos artistas você conhece que, com esta idade, ainda são criativos? Não tem como não admirar.

De boca aberta e, muitas vezes, surpresa com as interpretações dele, me peguei pensando em quanto tempo vivi sem me aprofundar naquela obra. Quanto tempo deixei que às críticas à sua voz, já desgastada pelos anos de uso, fumo e drogas, me afastaram de Dylan. E quanto tempo mais as pessoas vão precisar de shows pirotécnicos para apreciar um espetáculo.

Shows como de Dylan mostram que quando o peso dos anos e o valor infinito de uma obra entram no palco para um encontro intimista com os fãs, a técnica e o malabarismo não se fazem necessários. Ter Dylan no palco é muito, muito superior.

Ao redor

Eu intercalava minhas olhadas constante ao palco com a observação do público. Todos vidrados em Dylan, a não ser, claro, aqueles que se entretinham com os celulares. Ao meu lado, dois amigos que, entre uma música e outra, trocavam impressões sobre o show. Fora isso, o silêncio era nítido. Você conhece as músicas de Dylan, mas não consegue acompanhá-lo. Resta observá-lo.

As palavras faltavam a cada “gaitada” que o cantor dava. Restava o olhar cúmplice entre fãs que queriam dizer: “que foda!”

Dylan ensaiava “dancinhas” no palco. Não para chamar a atenção, longe dele, mas como forma de mostrar que estava se divertindo. Ballad of a Thin Man fez o tímido público da pista se levantar com seus celulares e curtir uma das canções mais conhecidas de seu repertório. Neste momento, fomos descendo até a frisa para observar mais de perto.

Ao final, após um rápido bis, olhei para meus amigos e o que dizer? Como descrever aquele momento, sabendo que era único e que não se repetiria? Dylan nos colocou como parte de muitas de suas versões para os shows. Nada é igual, nada se repete e a emoção nítida no olhar dos meus companheiros e até a mudança que isso provocou em mim são tão únicas como a apresentação de Bob.

(Foto: Tiago Dias)

Bem-vindos

Vamos falar de cultura. É o que resta. A vida tá difícil, o pão tá caro, a rotina cansativa. Mas a música, o filme, a peça, a exposição e a leitura que nos salva desta selva de pedra, fica. Então, vamos falar de cultura. Porque existe cultura em cada esquina.