On the Road, Diários de Motocicleta e a liberdade

Estrada = liberdade. Ontem foi a estreia de “On the Road” e eu fui. O filme é longo, chega a ficar cansativo, mas a linguagem que Walter Salles usa nas cenas, na fotografia e a história são elementos que compensam as 2h17 em frente à telona.

Durante o filme, eu lembrei muito de “Diários de Motocicleta”, também de Salles. A dinâmica e o que move a história dos filmes são bem parecidas. A liberdade e a busca por um sentido na vida direciona a história. Pegar uma estrada, sair da cidade em que vive e buscar novos ares. Quem não sente essa vontade de vez em quando?

O ser humano, desde sempre, busca a liberdade, mesmo sabendo que ela é tão efêmera e difícil. Você pode ter liberdade de pensamento, de expressão, mas mesmo quando sai da sua casa, não alcança a liberdade em outros pontos. Porque estamos presos em nós mesmos, nos sistemas que são impostos.

Mas, sim, você pode viver da maneira que achar melhor e isso é liberdade de escolha. Em “On the Road”, inspirado na obra de Jack Kerouac, jovens buscam viver sem amarras, mas sentem falta de ter algum laço, em algum lugar ou com alguém.

Em “Diários de Motocicleta”, Che Guevara na juventude buscava conhecer outras culturas, outras pessoas e assim crescer interiormente.

Sem dúvida, viajar é uma maneira incrível de se conhecer e de interagir com outros modos de vida. A ida, por si só, já nos proporciona aquele momento com a gente mesmo, a paisagem, e a ansiedade com o que está por vir.

Viajar é viver uma vida paralela, mesmo que por alguns dias.

Acho que estes filmes que incitam a vontade de ter liberdade, de fazer as coisas sem se preocupar com padrões, estão aí para nos mostrar: você pode mudar sua vida se quiser, mas não pense que tudo será maravilhoso – sempre haverá o bônus e o ônus.

Viver é bom. É preciso saber. A liberdade está em você.

Em tempo: recomendo o filme. Bem dirigido, bem contado, lindas cenas, fotografia incrível, MAS se prepare para 2h morando com Sal e Dean – os amigos inseparáveis que viajam para todos os cantos dos EUA. Viagem, estrada e sentimento é com Walter Salles mesmo! Ah, e acabo de me lembrar de mais um longa deste tipo: “Central do Brasil”. É, o cara é bom no tema.

Foto: Divulgação de On the Road

Gabo quase sem memória

Sou daquelas pessoas que têm problemas para ler quando está em ônibus. O sacolejo do transporte coletivo unido à leitura me deixa com náuseas e dor de cabeça. Até pouco tempo atrás evitava ler também no metrô. Mas, daí, veio “Cem Anos de Solidão”, do Gabriel Garcia Márquez e quem disse que eu conseguia desgrudar do livro?

Indo de metrô para meu estágio, em uma TV pequena aqui em São Paulo, eu carregava o livro comigo e o lia, mesmo com dor de cabeça e apertada pelos demais usuários em horário de pico. “Devorei” o livro em pouco tempo, de tanto que era o vício. Considero, até hoje – sete anos depois -, um dos melhores livros que li.

Hoje, fiquei sabendo que Gabo está perdendo a memória. Está com demência senil, um dos fatores do Alzheimer, e que isso o impossibilitará de escrever novos livros. O escritor colombiano tem recorrido ao irmão para rememorar coisas do seu passado, com medo de perdê-las com a doença.

Imagino o quanto deva ser difícil lutar para não esquecer, não poder contar com a memória, não poder escrever.

Garcia Márquez criou o realismo fantástico. Macondo, a cidade de perfis extremamente humanos e reais. E de tão fantasiosa, a história  de “Cem Anos de Solidão” é muito mais real.  Como diria Pablo Neruda: “este é o melhor livro escrito em espanhol depois de Quixote”.

Começou, então, a busca por outros títulos do colombiano, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1982 – ano do meu nascimento. Vieram “Relatos de um Náufrago”, “Memórias de Minhas Putas Tristes”, “Olhos de Cão Azul” e “O Amor nos Tempos do Cólera” (que não consegui terminar de ler).

Me tornei admiradora do trabalho de Márquez. E agora fico sabendo que não haverão romances novos, que ele está se esquecendo de suas obras, de suas histórias e, talvez, da importância que tem para o mundo literário.

O que conforta é saber que ele não será esquecido, sua obra não se apagará como está acontecendo com suas lembranças.