Amy demasiado Amy

“Não gosto de gente de plástico”. A primeira vez que ouvi essa expressão foi uma referência à Amy Winehouse. Eu adotei a frase para designar pessoas que são reais, cheias de defeitos, com suas loucuras particulares. Coisas inerentes ao ser humano. Mas, ser de plástico, significa tentar camuflar o nosso “humano demasiado humano”. Gosto de quem expõe.

Amy era o que era. Morreu porque foi o extremo do que era.

A inglesinha rebelde nada mais era que uma menina que gostava de brincar com fogo.

A primeira vez que ouvi Amy foi cantando a clássica “Rehab”. Logo imaginei uma negra linda com um belo black power soltando o vozeirão, vindo lá dos anos 70. O Google me mostrou o contrário. Moderninha, um topetão que virou moda e os olhos marcados estilo “gatinho” – coqueluche nos anos 70. A onda setentista já estava tomando conta de mim quando Amy passou a fazer parte da minha playlist.

O disco “Back to Black”, lançado em 2006, ficou em 2º lugar na Billboard 200 e em 1º na UK Albums Chart. No Brasil, vendeu mais de um milhão de cópias. Diferente das outras cantoras, Amy abriu espaço e se destacou entre tantos iguais.

Autêntica em cada som de sua voz, em cada composição, Amy não perdoava a si mesma. E que nunca disse para si mesma que não presta, em algum momento da vida? “You Know that I’m no Good”. Ou quem nunca “Back to black” após o fim de uma relação?

Por isso, aqui vai uma campanha: por uma vida sem pessoas de plástico!

Amy morreu em julho do ano passado se juntando ao hall de ídolos que se foram aos 27 anos: Kurt Coiban, Jim Morrisson, Janis Joplin… Uma pena.

Essa é uma das que mais gosto:

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El secreto de Soledad

Soledad Villamil. O nome não é tão conhecido do público brasileiro. A atriz, que também é cantora, atuou no filme “O Segredo dos seus Olhos”, do diretor Juan José Campanella, um dos melhores dele, na minha opinião.

Ao lado de Ricardo Darín, que dispensa apresentações, Soledad investiga um assassinato. No meio da trama, os dois acabam relembrando o passado que não viveram, a história de amor que deixaram de construir. O filme é muito bom, como todos feitos por Darín e Campanella.

 

Os dois eu já conhecia. Faltava conhecer Soledad. Descobri, então, que ela também é cantora. As músicas lembram os tangos argentinos e a voz é fenomenal. Tava aí o segredo de Soledad: uma artista completa!

Para quem gosta da segunda língua mais bonita do mundo (a primeira é o português), vale ouvir.

Interpretando Violeta Parra:

Pra ter vontade de dançar um tango (ai, que saudades de Buenos Aires!):

 

A transa de Caetano

A brasilidade cantada em inglês. Exilado em Londres, em 1969, Caetano Veloso, triste por ter de deixar seu país nos anos de chumbo, passa três anos fazendo de sua música uma forma de sobreviver àquela cidade fria, nublada e “que só chovia”, dizia ele.

Acostumado com o calor e os dias claros do Brasil, Caetano vê-se em um país estranho. Em 1971, vem ao Brasil com autorização do governo para ver uma missa comemorativa dos 40 anos de casamento dos seus pais e, interrogado pelos militares, recebe a proposta de escrever uma música elogiando a Transamazônica. Ele não aceita, mas ao voltar a Londres, grava o disco “Transa”, o 8º melhor disco brasileiro de todos os tempos, segundo a revista “Rolling Stone”.

O disco, com participação Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa nos arranjos, é um dos meus preferidos de Caetano. A obra completou 40 anos este ano e ainda é muito aclamada. Misturando português e inglês, Caetano mostrava que vivia em dois mundos: não se encaixava em nenhum deles, mas desejava voltar para casa, mesmo quando a depressão dos primeiros anos já tinha diminuído.

O álbum foi lançado no Brasil em 1972.

Entre as influências, Caetano cita The Beatles, Rolling Stones e o reggae de Bob Marley.

A preferida de Caetano (um poema de Gregório de Matos):

A minha preferida:

Elvis, o rock e eu

Os números fazem de Elvis Presley importante para o mundo da música. Os títulos também. Rei do Rock, Elvis the Pelvis, um dos criadores do rockabilly. Você pode conhecê-lo por qualquer um desses nomes, pelo topete, pela forma de dançar no palco, pela bela voz um por ou outra canção de amor. Eu o conheço pelos olhos da minha mãe.

Fã incondicional do cantor, minha mãe é o que chamaríamos hoje de ‘elvismaníaca’, do tipo que assistiu a todos os filmes, ouviu todos os discos e até hoje cantarola e, creio eu, sonha com seu astro.  Com ela, ainda criança, vi filmes do cantor e ouvia as histórias da vida dele que ela me contava. “Elvis se viciou em remédios por causa da forte dor que sentia nas costas”, ela me disse uma vez. E eu nem sabia o que era vício em drogas, mas já sabia que ele tinha morrido daquilo.

Música que mamãe sempre cantarola:

Eu entendo sua paixão por ele. Alto, olhos claros, voz linda, com toda a pinta de galã, que mulher não se apaixonaria?

Priscilla Presley foi espertinha. Casou-se com o cantor e viveu um conto de fadas… até a página dois. Sensual e cheio de charme, Elvis dava suas escapadelas e essas traições fizeram Priscilla muito infeliz. Mas, como eu dizia antes, conheço a história de Elvis pelos olhos da minha mãe e, para a dona Suely, Priscilla foi a traidora da história. “Ela começou a sair com o professor de karatê dela. Ela traiu o meu ídolo”, disse-me.

Os lindos e uma música linda:

Priscilla conta que sabia da infidelidade do marido e, no começo, pensou em relevar, já que gostava mais do cantor do que de si mesma. Mas, depois do nascimento da filha Lisa Marie, ela viu Elvis se afastar fisicamente dela e já não saía mais de casa. O jeito foi iniciar um caso amoroso com o professor, porque quem não dá assistência…

Enfim. Os dois se separaram em 1972. Elvis morreu em 1977, em sua mansão, em Memphis, Graceland. Parte do que estava naquela casa, foi trazida por Priscilla ao Brasil e está em exposição no shopping Eldorado, em São Paulo. A viúva veio ao país para abrir a exposição e ser aclamada pelos fãs de Elvis.

E onde eu entro nessa história? Bom, me chamo Priscila. Minha mãe gostava deste nome desde aquela época, mas para ter argumentos mais fortes para me dar o mesmo nome que a mulher de Elvis, jogou a culpa em uma propaganda do Omo em que a atriz se chamava Priscila. Cá estou, com um “l” só, sob o carinho de uma ‘elvismaníaca’. Elvis não morreu.

Cazuza: mimado e genial

Filho único, classe média alta e uma rebeldia sem causa. Cazuza era o cara da turma que começou a trabalhar porque o pai achava que ele era muito boêmio. Presidente até hoje da Som Livre, João Araújo colocou Agenor para trabalhar na gravadora. Não demorou muito para que ele se entediasse e encontrasse no Barão Vermelho sua forma de independência.

As letras apresentavam as questões da juventude, o amor, as drogas, o rock rasgado. Fã de Cartola, Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa, fã de teatro, poesia e do romantismo, algumas letras de Cazuza beiravam o brega, mas ele sabia dosar. Desde adolescente, demorava a beijar alguém, porque se prendia ao romantismo, enquanto os amigos queriam mais era contar quantos beijos davam em uma noite.

Assim nasce a poesia e o poeta dentro de Cazuza.

Na vida dele, era fácil ser poeta, se dedicar à arte. Mimado, filhinho da mamãe, Cazuza tinha tempo e dinheiro para deixar a criatividade fluir. Chegava  a ser chato. Mas não deixou em nenhum momento de ser genial. E tinha talento.

A importância de Cazuza para a música é inegável. Mas, diferente de seus ídolos, era boa vida e usou a situação a seu favor. Foi criticado por isso, chamado de burguês. Mas, me diga: se você também pudesse não trabalhar e ir atrás do que realmente quer fazer, se entregar à arte, não o faria?

Ontem, revendo o filme “Cazuza – O tempo não para”, em algumas cenas ficava bastante claro o lado mimado do cantor. Do tipo que levanta em um bar para dar lições de moral, esfregar na cara dos outros que é “transgressor”. Autêntico, mas chato, vamos concordar. Ele me fez lembrar a minissérie “Maysa”, em que a personagem repetia a todo tempo: “sou à frente do meu tempo”. Boring! E eu gosto de Maysa, acho realmente que ela representava a liberdade feminina. A pessoa não precisa ficar declarando o que é.

Claro que isso não diminui o apreço que tenho por Cazuza. O cara escancarou sua bissexualidade, vivia no Baixo Leblon – se morasse em SP, adoraria o Baixo Augusta (rs) -, assumiu a Aids, saiu de uma banda consagrada para ter uma carreira solo (em mais um ato de ‘mimadice’) e não se escondeu.

Gosto de Cazuza porque ele não é uma pessoa de plástico. Assim como gosto da Amy Winehouse (vale outro post a minha relação com a inglesinha rebelde).

Em nenhum momento ele fingiu ser quem não era. Contraditório e talentoso. Era gênio.

Uma coisa é certa: viveu a vida intensamente, como se soubesse que a morte viria cedo.

Musicalmente, conseguiu trazer brasilidade ao rock, resgatar músicas antigas, referências antigas, tratar de temas que até hoje são discutidos. Era rebelde sem causa, não tinha motivos para se rebelar. Mas, mesmo assim, se importou com quem não tinha a mesma vida que a dele. Foi além.

Foi o cara que escreveu uma das músicas mais lindas e tristes nos anos 80/90 e que ouviu de Hebert Vianna (outro gênio) que era ele quem deveria ter escrito “Quase um segundo”. Qualquer um gostaria de ter essa inspiração:

Falou abertamente da Aids e a limitação que ela trazia para uma vida louca, vida: “Meu prazer agora é risco de vida”.

O poeta que levou o Barão Vermelho a ser ovacionado na abertura do Rock in Rio de 1985, foi exposto em uma capa da “Veja” bastante questionável. A revista sentencia a morte de Cazuza e logo vê a revolta da classe artística, de amigos do cantor. Episódio para a revista se envergonhar pelo resto dos tempos.

Em 1990, um ano após assumir ao público que estava doente, Cazuza morre, com 32 anos. Deixa uma obra que é revisitada até hoje. O exagerado deixa sua marca no rock brasileiro. Único.

Parte do filme em que eu nunca seguro as lágrimas:

“Já que eu não posso te levar, quero que você me leve…”

Pra terminar, uma música que eu acho linda:

Duas músicas, uma inspiração

Eu tenho que tirar o chapéu. Pattie Boyd é de fazer inveja a qualquer mulher. Pra ela, foram feitas as duas músicas mais lindas escritas para uma mulher. Mas vamos contar desde o começo.

A modelo Pattie Boyd conheceu George Harrison (o gato dos Beatles) quando tinha 20 anos e participou da filmagem de “A Hard Day’s Night”, em 1964. Em 1966, os dois estavam casados. Para ela, Harrison fez a linda “Something”, canção que faz parte do disco “Abbey Road” – belíssimo disco, por sinal.

Something in the way she knows/And all I have to do is think of her/Something in the things she shows me…

No clipe, ela aparece ao lado de Harrison:
 
 
 

Tudo ia lindo e maravilhoso, ela já era uma mulher de sorte, invejada pelas beatlemaníacas e uma modelo de sucesso. Mas as coisas sempre podem melhorar e daí, eis que surge Eric Clapton, o melhor amigo de Harrison e o melhor guitarrista do mundo. Ok, ele não tinha esse título ainda, mas já era amigo do beatle.Clapton se apaixona por Pattie.

No começo, ela reluta, ainda amava Harrison, os dois tinha vibes fenomenais juntos, usavam LSD, maconha e otras cositas más e o cara era amigo do marido dela. Como lidar? Porém, vem uma crise conjugal e é Clapton quem a consola, se apaixona e aí…

Ela não precisou fazer muito. Eis que um dia, cheio de amor pra dar, Clapton a convida para ouvir uma música que ele tinha feito e que queria a sua opinião. À dama é apresentada nada mais, nada menos que “Layla”, um dos maiores sucessos do cantor. E era pra ela a letra que dizia:

Tried to give you consolation/When your old man, he let you down/ Like a fool, I fell in love with you/ You turned my whole world upside down
“…You’ve got me on my knees, Layla…”

 
 
Sim, ela deixou o cara de joelhos!
 
 

Pattie Boyd casa-se com o rei da guitarra 1979, dois anos depois da separação de Harrison.

Obrigada, Pattie, por ter causado essas duas inspirações tão lindas!

A cordialidade do patrão

A relação entre patrão e empregado há muito foi discutida, filosofada e pensada. Em cena, a Companhia do Latão – que completa 15 anos – ressalta essa relação e dá novas nuances e novas reflexões sobre o tema trabalho, dinheiro e bem-estar.

Inspirado em “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Hollanda, e em “O senhor Puntila e seu criado Matti”, de Bertolt Brecht, entre outros textos, “O Patrão Cordial” traz à tona a sentimentalidade do brasileiro, o ambiente de trabalho e os limites na relação patrão-empregado.

É uma comédia, mas traz mais reflexões que risos.

O patrão, o senhor Puntila do Brasil, mantém uma relação dúbia com seus funcionários. Usa a sentimentalidade para conseguir convencê-los a trabalhar para ele. Ao mesmo tempo, os demite e os contrata quando bem entende porque sabe que “eles precisam trabalhar”. Apesar da sentimentalidade, não há humanidade.

Em meio a tudo isso, uma filha, Helena, atormentada pelo fato de ter de se casar um “engomadinho” que só está interessado nas terras do velho Puntila. Infeliz, ela busca seduzir um dos empregados do pai, Matti, mas o homem a convence de que não serviria para ser sua mulher. “Minha mulher tem que saber costurar e cozinhar”, diz o homem.

Relações baseadas no dinheiro, na ódio entre ricos e pobres, na sociedade que vive às custas das diferenças sociais e a política são panos de fundo deste espetáculo encenado no Teatro de Arena.

Ao final, após tantas reflexões sobre as relações humanas, o ator,  que interpreta o “comunista”, diz: “Se fosse um teatro, eu diria que as pessoas sairiam daqui com vontade de mudar o mundo. Mas não é teatro, é vida. E dura pouco”. Ele tem razão.

Foto: Divulgação