Cazuza: mimado e genial

Filho único, classe média alta e uma rebeldia sem causa. Cazuza era o cara da turma que começou a trabalhar porque o pai achava que ele era muito boêmio. Presidente até hoje da Som Livre, João Araújo colocou Agenor para trabalhar na gravadora. Não demorou muito para que ele se entediasse e encontrasse no Barão Vermelho sua forma de independência.

As letras apresentavam as questões da juventude, o amor, as drogas, o rock rasgado. Fã de Cartola, Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa, fã de teatro, poesia e do romantismo, algumas letras de Cazuza beiravam o brega, mas ele sabia dosar. Desde adolescente, demorava a beijar alguém, porque se prendia ao romantismo, enquanto os amigos queriam mais era contar quantos beijos davam em uma noite.

Assim nasce a poesia e o poeta dentro de Cazuza.

Na vida dele, era fácil ser poeta, se dedicar à arte. Mimado, filhinho da mamãe, Cazuza tinha tempo e dinheiro para deixar a criatividade fluir. Chegava  a ser chato. Mas não deixou em nenhum momento de ser genial. E tinha talento.

A importância de Cazuza para a música é inegável. Mas, diferente de seus ídolos, era boa vida e usou a situação a seu favor. Foi criticado por isso, chamado de burguês. Mas, me diga: se você também pudesse não trabalhar e ir atrás do que realmente quer fazer, se entregar à arte, não o faria?

Ontem, revendo o filme “Cazuza – O tempo não para”, em algumas cenas ficava bastante claro o lado mimado do cantor. Do tipo que levanta em um bar para dar lições de moral, esfregar na cara dos outros que é “transgressor”. Autêntico, mas chato, vamos concordar. Ele me fez lembrar a minissérie “Maysa”, em que a personagem repetia a todo tempo: “sou à frente do meu tempo”. Boring! E eu gosto de Maysa, acho realmente que ela representava a liberdade feminina. A pessoa não precisa ficar declarando o que é.

Claro que isso não diminui o apreço que tenho por Cazuza. O cara escancarou sua bissexualidade, vivia no Baixo Leblon – se morasse em SP, adoraria o Baixo Augusta (rs) -, assumiu a Aids, saiu de uma banda consagrada para ter uma carreira solo (em mais um ato de ‘mimadice’) e não se escondeu.

Gosto de Cazuza porque ele não é uma pessoa de plástico. Assim como gosto da Amy Winehouse (vale outro post a minha relação com a inglesinha rebelde).

Em nenhum momento ele fingiu ser quem não era. Contraditório e talentoso. Era gênio.

Uma coisa é certa: viveu a vida intensamente, como se soubesse que a morte viria cedo.

Musicalmente, conseguiu trazer brasilidade ao rock, resgatar músicas antigas, referências antigas, tratar de temas que até hoje são discutidos. Era rebelde sem causa, não tinha motivos para se rebelar. Mas, mesmo assim, se importou com quem não tinha a mesma vida que a dele. Foi além.

Foi o cara que escreveu uma das músicas mais lindas e tristes nos anos 80/90 e que ouviu de Hebert Vianna (outro gênio) que era ele quem deveria ter escrito “Quase um segundo”. Qualquer um gostaria de ter essa inspiração:

Falou abertamente da Aids e a limitação que ela trazia para uma vida louca, vida: “Meu prazer agora é risco de vida”.

O poeta que levou o Barão Vermelho a ser ovacionado na abertura do Rock in Rio de 1985, foi exposto em uma capa da “Veja” bastante questionável. A revista sentencia a morte de Cazuza e logo vê a revolta da classe artística, de amigos do cantor. Episódio para a revista se envergonhar pelo resto dos tempos.

Em 1990, um ano após assumir ao público que estava doente, Cazuza morre, com 32 anos. Deixa uma obra que é revisitada até hoje. O exagerado deixa sua marca no rock brasileiro. Único.

Parte do filme em que eu nunca seguro as lágrimas:

“Já que eu não posso te levar, quero que você me leve…”

Pra terminar, uma música que eu acho linda:

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