Pai e filho: uma sanfona, um violão

“Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo, sumiu” (Com a perna no mundo – Gonzaguinha)

Dina, apelido de Leopoldina de Castro Xavier, foi a mulher que criou Gonzaguinha, o moleque Luizinho, quando o pai, rei da sanfona, viajava Brasil afora levando a música do nordeste para todos os cantos do país. Mulher forte, descendente de portugueses que morava no Morro São Carlos, no Rio de Janeiro, viu o afilhado crescer sem a convivência com o pai e da mãe, Odaléia, que já era falecida. Virou a mãe do moleque, e o pai era seu marido, Henrique Xavier, tocador de violão, com quem Gonzaguinha aprendeu a música.

Do pai, recebia o nome de certidão, dinheiro para pagar os estudos e algumas visitas esporádicas. Imerso no dia-a-dia atribulado da população, Gonzaguinha ia aprendendo a dureza de uma vida marginal, a injustiça diária vivida por uma parcela da sociedade que não tinha acesso a nada.

Tal qual o pai, que desde cedo via a vida dura no nordeste e tentava levar a realidade sertaneja e interiorana para o resto do Brasil.

Duas vozes, dois estilos, dois instrumentos. Estiveram separados, mas se uniam quando a intenção era retratar seus povos.

Gonzaguinha é muito mais presente na música contemporânea. Suas letras retratam um país recente, vestígios da ditadura e as dores da alma. Chegou a ser chamado de “cantor rancor”, mas achava que a alcunha foi criada para que ele vendesse mais. O fato é que as fotos e suas apresentações eram raramente marcadas por sorrisos. Gonzaguinha tinha o olhar triste, era muito sério. Para outros, era a timidez que o deixava assim, calado.

A situação do povo e a esfera política são sempre mostradas em sua obra. Seja com alegria ou com tristeza.

“Você deve notar que não tem mais tutu
e dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
e dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado” (Comportamento Geral – Gonzaguinha)

Como era de se prever naqueles anos de chumbo, a divulgação das canções logo foi proibida e Gonzaguinha “convidado” a prestar esclarecimentos no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Seria a primeira entre muitas visitas do compositor ao órgão público. Para gravar 18 músicas, Gonzaguinha submeteu 72 à censura – 54 foram vetadas.

Apesar de toda a perseguição, Gonzaguinha nunca deixou de divulgar seu trabalho: quer seja em discos onde driblava os censores com canções alegóricas, quer seja em shows onde, além de cantar as músicas que não podiam ser tocadas nas rádios, Gonzaguinha não se continha e exprimia suas opiniões e sua preocupação com os rumos que a nação tomava.

Enquanto isso, Gonzagão divulgava o baião, o xote e o xaxado por onde passava. Em 1980, os dois se aproximam, passada as desavenças por serem distantes e pelas brigas de Gonzaguinha com a madrasta, que chegou a mandar o menino para o internato.

Os dois resolvem correr Brasil afora cantando juntos e, enfim, fazem as pazes.

Porém, a alegria que demorou a chegar durou por volta de dez anos. Gonzaguinha morreu em 1991 em um acidente de carro. O pai, por sua vez, havia morrido em 1989, de parada cardiorrespiratória.

Chega ao fim uma história de amor e ódio, das descrenças de que o filho era legítimo. Até hoje não é sabido de fato se Gonzaguinha é filho de sangue de Gonzagão, mas que diferença isso faz?

Gonzaguinha e eu

Nada contra Gonzagão. Sua importância para a música nordestina e brasileira é notável ao passo de que seu maior sucesso, “Asa Branca”, foi regravado aqui e lá fora. Mas a minha relação maior é com Gonzaguinha.

Comecei a ler a biografia “Gonzagão e Gonzaguinha”, de Regina Eccheveria, há uns anos e embarquei na história. Fui atrás das músicas de Gonzaguinha ao passo que lia a obra, a qual indico e que serviu de inspiração para o filme “Gonzaga: De pai para filho“, que estreia semana que vem.

Virei fã de Gonzaguinha. Um certo dia, vi uma entrevista com o filho dele, Daniel, em que contava sua relação com o pai e mostrava as músicas que havia regravado dele. Pronto. Ouvir as músicas do “menino franzino” virou rotina.

Nos últimos anos, deixei de lado Gonzaguinha, descobri outras coisas, outros cantores, em sua maioria fora da música brasileira. Mas fui despertada em um samba ao vivo que rolou numa baladinha paulistana. O cantor cantava “Com a perna no mundo”. Quando ouvi o refrão, que citava Dina, me lembrei da história do artista e voltei a ouvi-lo.

É bom saber que as músicas vêm e vão nas nossas vidas. Que mesmo esquecidas, elas ressurgem na memória. E que longe de todo o preconceito que as obras brasileiras sofrem, é bom saber que as pessoas estão se interessante pela história desses dois, que se confunde com a nossa história, e que é tão humana.

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Grandes cidades, grandes (des)encontros

São Paulo, Buenos Aires e Nova York. O que estas cidades têm em comum? São grandes, super habitadas, megalópoles, que promovem encontros e desencontros ao longo da vida. A cidade é quem dita o comportamento dos que moram nela e, talvez, seja tão assustador habitá-las e, também, tão fascinante.

Nas últimas semanas, vivemos as tensões pré-urnas nas cidades do Brasil. Uma escolha tão importante, mas tão menosprezada. Ser prefeito de uma cidade é pequeno perto de outros cargos, mas, talvez, seja o cargo que mais afeta a vida das pessoas diretamente.

Uma cidade propõe o nosso modo de pensar, já dizia Eugênio Bucci. Mas, além disso, dita as regras da nossa vida. Faz com que a gente adquira certas “loucuras”, manias, como os personagens dos filmes abaixo.

Para fugir da insônia e preencher as horas da madrugada, Travis se torna taxista em Nova York. Conhece a vida noturna da grande cidade e vive como um “fantasma” nela, uma pessoa sem identidade, que não dorme e desenvolve hábitos estranhos. Alucinado, ele compra uma arma para sobreviver às noites. Tive a oportunidade de ver esse filme na telona na última mostra internacional de cinema – aliás, a mostra deste ano começa no dia 19/10 (veja a programação aqui). Numa telona, os problemas e as evidências do mal que uma cidade grande podem causar ficam ainda maiores.

Já em “Medianeras”, filme argentino que passa em Buenos Aires, o autor coloca a culpa dos males, das doenças no fato da capital ser uma cidade grande. Depressão, bulimia, síndrome do pânico. Ele tem até razão. Mas a trama se baseia mais na solidão de duas pessoas, que demoram a se encontrar, do que nestes problemas. O que torna o filme interessante é justamente os desencontros de Martin e Mariana, que se relacionam pela internet e moram tão próximos sem nunca terem se encontrado. Cada um dribla a solidão de um jeito. Ela tem um manequim e ele um cão e muitas horas na internet.

Pra falar de São Paulo, acho que “Jogo Subterrâneo” identifica uma parte considerável da cidade: a vida no metrô. Inspirado em um conto do escritor argentino Julio Cortázar, o filme conta a história de um pianista chamado Martin que traça seu destino amoroso nas linhas subterrâneas. Cansado dos jogos amorosos, ele inventa seu próprio jogo e anda entre os trens em busca de mulheres que lhe interessam. Se ela faz a rota que ele pensou em seu jogo, ela se torna candidata ao cargo de namorada dele. Assim, ele conhece pretendentes e passa a se relacionar com elas, da forma como uma cidade grande proporciona: desconhecidos que se encontram e se separam a cada nova linha de metrô.

Não se pode deixar de dizer que tratando de relacionamento os encontros nas cidades grandes trazem histórias muito mais interessantes. O difícil mesmo é quebrar a barreira do desconhecido, “invadir” um espaço que é do outro, que você não conhece. Aquilo que Marisa Monte chama de “infinito particular”, todos nós temos.

Os encontros e desencontros que uma cidade grande proporciona, os medos, as angústias, o medo das pessoas que se aproximam do nada, sem te conhecer… são indícios de que onde a gente mora molda o que a gente pensa, as nossas reações. E quebrar esses “mitos” é sempre mais difícil. Bom mesmo é saber que mesmo na era da internet, as pessoas ainda valorizam os encontros “ao vivo”.

Pra finalizar, o clipe de “Medianeras”, um encontro ao vivo. Because ain’t no mountain high enough:

(Foto: Priscila Tieppo)

Mulher erótica nas prateleiras

“Se lave que vou lhe usar”. A frase dita por Coronel Jesuíno (vivido por José Wilker), da série “Gabriela”, irrita até as mais calmas das feministas. Servir o homem era o dever das mulheres lá na década de 30, em que se passa a belíssima e brejeira história escrita por Jorge Amado. Não falavam sobre sexo, tinham poucas informações. O que sabiam era que deveriam se deitar e deixar o homem conduzir o ato. Se demonstrassem prazer, eram punidas. Isso era regra para as mulheres “de família”, que se casavam virgens e eram educadas para cuidar do lar e dos filhos.

Já as prostitutas eram mulheres interessantes sexualmente. Muito se aprendeu com as prostitutas. Mas não só com elas. Com a liberdade sexual chegando em meados da década de 60 muitas mulheres foram incentivadas a descobrir seu prazer, o misterioso prazer.

O prazer da mulher não é só físico, mas também pode ser. Com a descoberta do próprio corpo, as mulheres se convenceram de que falar de sexo é a melhor forma de tirar dúvidas, aprender mais e se soltar na cama. Além de atiçar a criatividade, a curiosidade. Alô, Marta Suplicy, sexóloga dos primeiros programas femininos na TV!

Então, vamos falar de sexo?

Para ajudar nessa tarefa, os últimos anos foram recheados de produtos que têm o objetivo de falar de prazer com a mulher, sem se preocupar muito com o homem, o que ele pensa, o que ele quer. O ponto aqui é o que você, mulher, quer. Nada mais justo.

Vivemos décadas em que as revistas femininas eram feitas por homens, por exemplo. E traziam dicas como: tire o sapato do seu marido quando ele chegar, faça um bolo assim, assado, aprenda a costurar… A revista “Cruzeiro” era um exemplo. Lida pelas senhoras da sociedade.

Gabriela, a personagem principal da trama que leva seu nome, descobriu lá nos anos 30 que ser uma mulher livre era melhor do que ser uma senhora da sociedade. Ela segue seu instinto, suas vontades.

Hoje temos a chance de ser mais que “Gabrielas”. Podemos ser Pagu, Maysa Matarazzo, Marilyn Monroe, Simone de Beauvoir, Audrey Hepburn, Lady Di, Joana D’Arc, Leyla Diniz (toda mulher é meio Leyla, já dizia Rita Lee)… Quem a gente quiser!

E a gente vai desperdiçar isso?

Não! E nem a indústria do sexo deixaria. São filmes, livros, brinquedinhos, brinquedões, óleos, cremes, manuais… Não falta produto para a mulher se transformar em uma deusa na cama – e pros empresários lucrarem com isso.

O mais recente e mais comentado é o livro “50 tons de cinza”, da trilogia de Le James. A história é sobre um casal que tem experiências sadomasoquistas na cama, que são descritas sensualmente, sob o ponto de vista da mulher. A sensibilidade, as percepções femininas estão ali, com uma boa dose de erotismo. Porque hoje a mulher pode falar abertamente o que gosta ou não, o que dá prazer ou não. GRAÇAS À SANTA LIBERDADE.

Hoje, programas de TV, como “Amor e Sexo”, tratam bem do tema, sem vulgaridade e machismos. Um avanço!

Por isso, Coronel Jesuíno, se deite tu, que só vou lhe usar quando quiser. E como quiser.

Então, cantem comigo: