Tim Maia em desencanto e limpo

“Já virei calçada maltratada/e na virada quase nada/me restou, a curtição/já rodei do mundo quase tudo/no entanto, num segundo este livro veio à mão/já senti saudades, já fiz muita coisa errada, já vivi nas ruas, já pedi ajuda/mas lendo atingi o bom senso/a imunização racional.” (Bom Senso – Tim Maia)

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Todo mundo já parou alguma vez na vida para ler mais a respeito de uma religião, seita ou filosofia de vida. Quando Tim Maia resolveu largar as drogas e gravar um disco em que expunha o que vinha aprendendo com a Cultura Racional, fez os fãs pararam para conhecer um novo timbre de voz.

Limpa, em toda sua plenitude, a voz de Tim nos volumes 1 e 2 de “Tim Maia Racional” (ouça aqui!) é um marco na carreira do cantor. Os discos, lançados em 1975, chegaram a ser tirados de circulação por ele próprio, tornando-se peças raras no mercado. As obras voltaram a ser vendidas em 2006, quando foram remasterizadas.

De acordo com seguidores da Cultura Racional, esta filosofia é “a cultura do desenvolvimento do raciocínio, do mundo que deu origem a este em que habitamos. E não precisa de igreja, sinagoga, mesquita ou casa de pregação. Esta cultura não ataca, não ofende, não humilha, é a favor de todos. Interessa a toda a humanidade, pois é o conhecimento de onde viemos e para onde vamos, como viemos e como vamos, por que viemos e por que vamos”. Ok, não é tão diferente das religiões que sempre querem explicar de onde viemos e para onde vamos.

Mas Tim se interessou tanto que nas letras escritas para estes discos exaltava o criador da seita no Rio de Janeiro, Manoel Jacintho Coelho, pediu para as pessoas lerem o livro “Universo em Desencanto”, e dizia em uma das letras que “beleza é sentir a natureza, saber pra onde vai e de onde vem”. O cantor chegou a entregar a função de batizar  seu filho, Carmelo, com um nome que seu guru indicasse. O guru diz para ele que o menino deveria se chamar Telmo ou Carmelo. Ele registra o filho com o último, mas o chama a vida inteira por Telmo – coisas de Tim, contadas por Nelson Motta em “O som e a fúria de Tim Maia”.

Após o lançamento do álbum, Tim Maia passou um bom tempo divulgando o “Universo em Desencanto”, inclusive enviou o livro para James Brown, Curtis Mayfield e John Lennon.

Em uma das letras – “Bom Senso” -, o cantor lembra que já dormiu na rua, já pediu ajuda, relembrando os dias em que morou em Boston, nos Estados Unidos, e tinha de se virar para sobreviver. Chegou a ficar quase um ano sem dar notícias à família.

Tim foi responsável por introduzir o soul e o funk norte-americano na música brasileira. Quando gravou estes discos, as bases das músicas já estavam prontas em 1974, tendo de mudar apenas as letras para exaltar sua nova descoberta.

Em desencanto, Tim desiste da filosofia e tenta barrar a venda dos discos. A obra passa a fazer parte da lista da revista Rolling Stone, entre os 100 maiores discos brasileiros, ocupando a 17ª posição.

Após o término de sua fase racional, Tim voltou a seu antigo estilo (doido) de vida e aos temas não-religiosos em suas canções. E os sucessos não pararam.

Cronistas dos tempos de agora

Coisa de jornalista gostar de crônicas e querer escrever umas de vez em quando. O cotidiano é uma imensa reunião de pauta, que você faz mentalmente. Eu, particularmente, estou sempre olhando para os lados e imaginando pautas. Algumas que nunca se realizarão, mas que servem de pretexto pra escrever alguma besteirinha, um texto solto, uma frase, algo que fica guardado no fundo do armário, ao menos.

Não à toa o “slogan” deste blog é: “Porque há cultura em cada esquina”. Eu vejo cultura em tudo (e pauta também)!

Mas voltando às crônicas, tenho três escritores-jornalistas-cronistas preferidos no meio de tanta notícia dos jornais. Eles são um refresco para o meu dia e, muitos, acabam traduzindo momentos, mesmo sem saber. É o caso do Ivan Martins, que escreve às quartas-feiras no site da revista Época.  Incrível como ele escreve sobre temas que estou pensando ou vivendo. E sabe descrever os sentidos, os momentos, os sentimentos, as reflexões sobre as relações humanas. Uma espécie de terapia textual!

Ivan Martins, pra quem não conhece, mora aqui: http://revistaepoca.globo.com/palavrachave/ivan-martins/

Mas o meu preferido de todos, pela pluralidade de assuntos e forma incrível de escrever, é Xico Sá. O cara é gênio. Não tem o que falar. Sou viciada e leio todos os dias, não importa se ele está falando de futebol, política ou das relações amorosas.

Xico Sá mora aqui: http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/

Já o último desta lista (e não menos importante) é Marcelo Rubens Paiva. Este cara eu leio há mais tempo, lia os livros dele e, depois, passei a ler as crônicas no Estadão. Esta semana, caiu nas minhas mãos – graças às visitas à Livraria Cultura – um livro com as crônicas mais recentes, chamado “As verdades que ela não diz”. Comprei e estou adorando. Principalmente porque nele está o texto mais legal do Paiva nos últimos tempos chamado “A garota de São Paulo“. Uma homenagem às mulheres de Sampa. Tão bem escrita e tão real que faz qualquer homem do Brasil gostar um pouco mais de nós, paulistanas.

A casa de Marcelo Rubens Paiva é aqui: http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/

Cronistas dos tempos atuais deixam a vida contemporânea muito mais interessante. Muitos textos já me fizeram pensar e repensar sobre assuntos que, às vezes, seguem dentro de esteriótipos. Ivan Martins me ajudou a sensibilizar questões, a entender  um pouco mais os homens (olha que missão difícil!) e a enxergar sempre os outros lados, porque existem vários, não só dois.

Xico Sá é um misto de humor, inteligência e retratos cotidianos, com boas doses de músicas bregas e poesia. É ler um texto dele e saber que foi ele quem escreveu. É uma marca! Comecei a ler “o safado” depois de uma história que ouvi, em que ele xavecou uma amiga de forma “poética”. Para saber quem é o cara, leia os textos dele, aprendi. Viciei!

Paiva já me acompanha desde a adolescência. Leio quase que diariamente. Gosto muito dele, da sua forma de escrita, dos textos com muitos diálogo (inspiração pros meus, que mais “falam” do que descrevem), da simplicidade, das sacadas cotidianas.

Crônicas hoje em dia são reflexo das mudanças do mundo. Quer saber como era a vida nos anos anteriores? Leia uma crônica daquela época. Principalmente se o assunto for as relações humanas. Somos complexos. Somos infinitos particulares (como diz aquela música da Marisa Monte) prontos para sermos desnudados em palavras. Nada como uma boa crônica para simplificar e cumprir esta missão.

Me falta agora encontrar mulheres que escrevam crônicas e que me cativem. Sugestões?