O dia em que o Chile disse “No”

Gael García Bernal como René - Divulgação

Gael García Bernal como René em “No” – Divulgação

“Chile, la alegria yá viene”. Como este jingle e um arco-íris atrás da palavra “No”, a oposição chilena ganha o plebiscito que votou se o ditador Augusto Pinochet deveria continuar no poder ou não. O não nesta votação abriu espaço para a redemocratização do país. E é justamente este processo que é contado no filme “No”, estrelado pelo ator mexicano Gael García Bernal.

Ele é um publicitário que faz parte da equipe que monta a campanha do “No” para a TV. Com uma peça com elementos televisivos próprios da década de 80, e pitadas de propaganda de refrigerante e de videoclipes, René convence os conservadores da esquerda de que a população precisava de uma campanha otimista, que não afastasse a população por medo. Comunistas eram pintados como terroristas, lembram?

Logo da campanha do "Não" no plebiscito chileno - Divulgação

Logo da campanha do “Não” no plebiscito chileno – Divulgação

Por isso, o personagem usa muita cor e humor, para mostrar em seus vídeos que era necessário renovar o Chile.

O filme tem a coloração antiga para se igualar às imagens resgatadas de arquivos da época, em 1988, em que aparecia a propaganda tanto do “sim” quanto do “não”.

O histórico acontecido foi convocado por pressão internacional, e Pinochet pretendia conseguir um aval popular para sua continuidade no poder depois de 15 anos do golpe. Ele tinha a certeza de que iria vencer.

No meio de toda essa história política, uma criança, Simon, filho de René, que sofre com a ausência da mãe – presa por ser “comunista” -, e o trabalho do pai que coordenava uma campanha contra o governo que estava no poder, após ter sido exilado.

Uma importante parte da história do Chile, inspirada na peça “El Plebicito”, de Antonio Skármeta, que é contada pelo diretor Pablo Larraín. O filme abriu a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e é forte concorrente ao Oscar 2013 de melhor filme estrangeiro.

Bela interpretação de Gael. Belo roteiro. Belo filme!

A sambista caiu no rock de Robertão

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Muitos já regravaram o rei Roberto Carlos. O cantor, que se mantém na mídia lançando um disco por ano – mesmo que ele tenha apenas 4 músicas, sendo duas delas inéditas -, volta a ter sua obra revisitada por uma sambista. Sim, uma mulher do samba, diretamente dos arcos da Lapa carioca – uma das melhores cantoras da nova geração. Robertão não poderia querer mais.

As escolhidas são da fase mais legal do cantor, nos anos 60/70. Nada da chata “Esse Cara Sou Eu” ou exaltações à mulher de 40, à igreja, à baixinha… É Roberto Carlos em alto estilo, com a classe e a voz linda de Teresa.

Estão no álbum “Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos”: “Ilegal, Imoral ou Engorda” (Roberto e Erasmo), “A Janela” (Roberto e Erasmo), “Como 2 e 2” (Caetano), “Proposta” (Roberto e Erasmo), “O Moço Velho” (Sílvio César), “Do Outro Lado da Cidade” (Helena dos Santos), “O Portão” (Roberto e Erasmo), “Você Não Serve Pra Mim” (Renato Barros), “Quando” (Roberto Carlos), “Nada Vai Me Convencer” (Paulo Cezar Barros), “Cama e Mesa” (Roberto e Erasmo), “I Love You” (Roberto e Erasmo), “As Curvas da Estrada de Santos” (Roberto e Erasmo) e “Despedida” (Roberto e Erasmo). Na versão Deluxe do disco estão ainda “Sua Estupidez” e “Música Suave” (Roberto e Erasmo Carlos).

Se você  acha que vai ouvir as músicas do rei em ritmo de samba, se enganou. O som traz pitadas de jazz e de rock antigo, bem gostoso. Prepare-se para se surpreender (e se apaixonar!).

A ideia surgiu após a cantora se apresentar com a banda em diversas cidades do país cantando o rei. Deu tão certo que decidiram gravar o CD.

Na capa, a cantora aparece com um terninho branco, lembrando as vestimentas de Roberto Carlos. “Os Outros” são Vitor Paiva (baixo), Fabiano Ribeiro (bateria), Eduardo Sodré e Papel (guitarras) e Botika (vocal). E mais: Yuri Villar (sopros) e Ricardo Rito (teclados).

Vale a pena ouvir.

As músicas que marcaram 2012

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2012 foi um ano difícil musicalmente falando. Mas muita coisa boa surgiu. O Culturices montou uma lista das músicas que foram lançadas em 2012, mas que não devem cair no esquecimento. Deixando de lado os hits como “Gangnan Style”, do Psy, que deve ser esquecido com a proximidade das músicas de Carnaval – que são tão chicletes quanto -, e as modinhas sertanejas e do pagode – que encabeçam a lista das mais tocadas nas rádios, o que nos resta?

O blog selecionou 12 músicas que valeram 2012, confira:

#Norah Jones – Travelin’ On

A cantora volta à cena musical em 2012 com o belíssimo disco “Little Broken Hearts”. Para destacar uma canção, rolou uma dúvida entre a escolhida e “Happy Pills”. Vale a pena conferir as duas (e o disco, claro!).

#Soundgarden – Live to Rise

“Like the sun we will live to rise”. Com este verso, a nova música da banda de rock americana volta a ser o bom e velho Soundgarden e cai nas graças dos fãs já saudosos.

#Hot Chip – Look at Where We Are

Eleita uma das músicas mais bonitas de 2012, em diversas listas – amadoras ou profissionais – , a melodia tranquila da banda de Londres é destaque do álbum “In Our Heads”

#Tulipa Ruiz – Script

“Tudo Tanto”, álbum da cantora lançado este ano após três anos rodando o país com o “Efêmera” – disco que rendeu muitos prêmios à Tulipa -, mostra um lado mais maduro da artista, com letras mais “adultas”. Além da música escolhida, vale ouvir: “Ok” e “Víbora”.

#Maria Bethânia – Vive

A cantora baiana lança “Oásis de Bethânia” que traz esta música, “Vive”, como destaque, ao lado de “Cartas de Amor”. A música é uma composição de Djavan – bem diferente das letras “viajantes” do cantor -, que casou muito bem com a belíssima voz de Bethânia.

#Neil Young – High Flyin’ Bird

O velhinho do rock “caipira” volta a lançar um disco, “America”, em 2012 e aposta nas guitarras que lembram os rocks dos anos 70.  Vale a pena ouvir.

#Bob Dylan – Duquesne Whistle

Dylan merece sempre uma menção honrosa em qualquer lista. Podem criticar sua voz, mas o velho está cada dia mais ativo. O disco, “Tempest”, é o novo trabalho do cantor. Esta música é inspirada no mundo do diretor de cinema Quentin Tarantino. Vale a pena conferir o clipe.

#Céu – Chegar em Mim

A menina Céu cresceu e fez um disco, “Caravana Sereia Bloom”, em que mistura diversos ritmos, passando pelo forró, o pop e o reggae. Também foi difícil escolher uma música, mas esta foi a mais ouvida por aí. Além dela, aposte em “Contravento” e “Retrovisor”.

#Caetano Veloso – Abraçaço

Caetano lançou o álbum que leva o nome desta faixa no final de 2012 e ganhou a crítica. Além de “Abraçaço”, vale a pena ouvir “Um Comunista”, “Estou Triste” e “Vinco”.

#Curumin – Selvage

Novidade no circuito brasileiro, Curumin mistura a levada soul com o pop. “Selvage” entrou em diversas listas brasileiras como uma das melhores músicas do ano.

#Vivendo do Ócio – Nostalgia

Todo o clima da Bahia em “Nostalgia”. A música tem a levada do mar e da saudade. A banda também é uma das novidades brasileiras no cenário indie.

# Matchbox 20 – Our Song

As últimas boas músicas da banda tinham ficado no álbum “Yourself or Somenone Like You”, de 1996. Mas a banda parece querer recuperar o tempo perdido. A faixa acima, do disco “North”, mostra que ainda há salvação e que Rob Thomas continua com uma voz linda.

Bônus track:

#Gaby Amarantos – Ex-Mai Love

Ok, vão acusar o blog de brega. Mas quem não foi um pouquinho brega este ano? Gaby Amarantos merece esta menção não por suas músicas, mas por ter mostrado ao resto do país a cultura do Pará, o significado das aparelhagens em terras em que poucos shows devem chegar. Ela já tinha arrasado com “Xirley” e conseguiu levar sua música à abertura de uma novela que tinha tudo a ver com ela – “Cheias de Charme”.

Que 2013 nos traga músicas boas e inesquecíveis.

O amor entre o existencialismo e o feminismo

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Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre se conheceram em 1929 em Sorbonne. O relacionamento, que tanto chocou a França naquela época, rendeu estudos filosóficos que ajudaram na evolução do pensamento humano. Ateus, os dois filósofos e escritores acreditavam na corrente chamada “Existencialimo”, nome dado por Sartre aos estudos iniciados por Martin Heidegger em 1920.

Heidegger dizia que “o importante é a nossa relação com a própria existência”. Mais tarde, Sartre une os conceitos de livre arbítrio a estes estudos e propõe que a “existência precede a essência”.

Na mesma corrente filosófica vinha Simone. A dama, no entanto, agrega valores feministas aos pensamentos de Sartre e tem um dos seus livros proibidos pelo Vaticano. “O segundo sexo”, lançado em 1949, propõe que a visão masculina, que era padrão na época, definia as mulheres como fêmeas e não como seres humanos. Nasce o feminismo existencial.

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, além de surpreenderem com os pensamentos inovadores, também são julgados pela sociedade por seu relacionamento aberto. Ambos foram companheiros durante a vida toda e mantinham relações extras, tendo, inclusive, feito viagens nas companhias dos amantes. A liberdade era o fundamento da relação e da corrente filosófica que seguiam.

Polêmicas à parte, o casal representa a evolução do pensamento humano em dois quesitos: “Sou o que sou, de acordo com as minhas experiências e atitudes” e “A mulher deve ter o direito de escolher o que quer ser, não apenas dona de casa e mãe, como lhe é imposto”.

Os dois trocavam muitas cartas sobre o que pensavam e sobre seu relacionamento. Delas, foi extraído um trecho que foi recentemente muito bem interpretado por Fernanda Montenegro, que se vestiu de Simone no teatro. O texto fala da velhice, do passado e da vida sem arrependimentos:

“A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido, embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.” (Simone de Beauvoir)

Pensamento para um novo ano!

Pensamento para um novo ano!

Que nos salve da loucura, amém!

Requiém para um sonho - Divulgação

Requiém para um sonho – Divulgação

Loucura, no dicionário: 1 Estado de quem é louco. 2 Med Desarranjo mental que, sem a pessoa afetada estar ciente do seu estado, lhe modifica profundamente o comportamento e torna-a irresponsável; demência; psicose. 3 Ato próprio de louco. 4 Insensatez. 5 Aventura insensata. 6 Grande extravagância. 7 fam Alegria extrema, diabrura: Loucuras das crianças. 8 fam Propensão excessiva; mania:Loucura pelo futebol. 9 fam Despesa desproporcionada. Antôn (acepção 4): siso.

Você já cometeu uma loucura – uma aventura insensata. Eu também. Todos nós. Difícil é quando esta loucura afeta seu estado mental, como descrito no número 2 aí da definição do dicionário Michaelis.

Nos últimos tempos, assisti a dois filmes que tratam desta temática: “Requiém para um Sonho” e “Menos que Nada”. O primeiro, foi lançado em 2000 e dirigido por Darren Aronofsky. O segundo, é brasileiro, dirigido por Carlos Gerbase, direto dos pampas gaúchos, lançado este ano.

Menos que Nada - Divulgação

Menos que Nada – Divulgação

Os dois mostram os estágios de loucura, incentivados por motivos diferentes.

Em “Requiém”, a obsessão em realizar sonhos leva os personagens principais a estágios de loucura causados por drogas e remédios. Uma visão frenética, perturbada e única sobre pessoas que vivem em desespero e ao mesmo tempo cheias de sonhos. Harry Goldfarb (Jared Leto) e Marion Silver (Jennifer Connelly) formam um casal apaixonado, que tem como sonho montar um pequeno negócio e viverem felizes para sempre. Porém, ambos são viciados em heroína, o que faz com que repetidamente Harry penhore a televisão de sua mãe (Ellen Burstyn), para conseguir dinheiro.

Já Sara, mãe de Harry, é viciada em assistir programas de TV e recebe um convite para participar do seu show favorito, o “Tappy Tibbons Show”. Para poder vestir seu vestido predileto, Sara começa a tomar pílulas de emagrecimento, receitadas por seu médico. As pilulas a levam à loucura.

O longa é frenético, assim como “Cisne Negro”, do mesmo diretor. É preciso estar atento para acompanhar cada cena e distinguir o que é delírio do que é real dentro da ficção.

Já “Menos que Nada”, gira em torno do tratamento de um doente mental internado há dez anos num hospital psiquiátrico, onde foi esquecido pela família, pelos amigos e pela sociedade. O longa proporciona uma  reflexão sobre a doença mental, que permanece como uma espécie de continente inexplorado e quase desconhecido, embora atinja parcela significativa da população brasileira.

Dante é o rapaz que sofre da doença e que sempre fez tudo que as mulheres que rodeavam suas vidas queriam. Com distúrbios visíveis, já que não era um rapaz sociável, Dante desencadeia a loucura quando é enganado pela mulher que amava.

O filme traz à luz as condições de hospitais e a preparação de médicos psiquiatras para tratar desta doença. No Brasil, poucas clínicas estão preparadas para o problema. Muitas ainda utilizam formas inadequadas e antigas de tratamento, o que retarda muito a evolução do paciente.

O fato é que todos nós temos uma estágio de loucura, proporcionado pela vida que levamos, o ambiente em que vivemos.

Mas, como diria Neruda: “Já que não podemos ser salvos da morte, que o amor nos salve da vida”. E eu acrescentaria: nos salve da loucura.

Continuemos com as nossas loucurinhas que nos fazem bem. Afinal, de perto ninguém é normal.

Dizem que eu sou louco….

Os 50 anos da garotinha

cassia

Cássia Eller gostava de mostrar os peitos quando se apresentava. Lembro-me de um show que vi num estacionamento de shopping, lotado. Cássia com a camisa do Flamengo mostrou os peitos umas três vezes. Já era rotina, fazia parte do seu show acender as mulheres da plateia que a desejavam. Elas gritavam “gostosa” sem parar e eu, tímida com meus 15, 16 anos… Não lembro ao cert0.

Deste show, guardo o timbre de voz rouco e inconfundível da cantora. Homossexual assumida, Cássia era uma figura marcante: ora aparecia com as sobrancelhas raspadas, ora com os cabelos revoltos, mas quase sempre curtos. Morreu em 2001, aos 39 anos, vítima de um infarto, mas deixou belíssimas interpretações de cantores como Cazuza, Renato Russo, Janis Joplin, Nando Reis, Arrigo Barnabé, Caetano Veloso e até da banda Nirvana.

Mas, com certeza, uma que se destaca é a versão que Cássia fez para “Non Regrette Rien”, de Edith Piaf:

Entre suas canções, a que mais se tornou conhecida, por ganhar espaço na novelinha “Malhação”, da Globo, tema de Fernanda Rodrigues (ainda uma criança naquela época), foi “Maladragem”, em que a cantora se perguntava: “Quem sabe ainda sou uma garotinha?”:

Se estivesse viva, a garotinha completaria 50 anos. Seu filho, Chicão, encontrou recentemente uma música inédita de sua mãe em parceria com Simone Saback, gravada em 1982, quando Cássia ainda morava em Brasília. O vídeo, com depoimento de Simone, foi exibido na noite de ontem, no “Fantástico”:

O álbum que leva a data de seu aniversário, 10 de dezembro, foi uma homenagem póstuma feita pelo amigo Nando Reis, ex-Titãs, que reuniu 11 interpretações marcantes de Cássia e lançou a inédita “No Recreio”, uma composição dele feita para ela:

Em tempos em que os timbres de voz se parecem tanto e são tão imitados, faz falta uma voz feminina e marcante como a de Cássia. Para encerrar, uma música que gosto muito e que Renato Russo fez para Cássia quando ela estava grávida:

A fotógrafa do rock

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Linda foi mais do que a inspiração para a bela música de Paul McCartney “My Love” e mais do que a companheira dele no The Wings, banda pós-Beatles. Linda McCartney também foi uma excelente fotógrafa e seus cliques viraram um livro, alguns anos depois de sua morte.

De um acervo com mais de 200 mil fotos, Paul escolheu algumas,com a ajuda dos filhos, para homenagear a mulher que morreu de câncer em 1998. O livro foi publicado ano passado com imagens inéditas dos Beatles, Rolling Stones, Eric Clapton, Bob Dylan, além de cenas de sua família. As fotos, sempre com um tom descompromissado, com imagens do cotidiano, imprimem o ar de “bastidores” do rock.

Como fotógrafa da cena musical do final dos anos 1960, Linda se tornou a primeira mulher a ter seu trabalho publicado na capa da revista “Rolling Stone”, em 1968, com uma foto do músico Eric Clapton.

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Pra quem gosta de fotografia (como eu!) e de rock (idem!), o livro “Linda McCartney: Life in Photographs” é um prato cheio. É ver as imagens e cantarolar qualquer música dos anos 60 para combinar.

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