Cabra-cega de melanina acentuada

namibia

O cenário é um apartamento. Nele, ninguém pode entrar, e dele ninguém pode sair. Ao redor, os medos, os receios, incitados por uma lei de governo.

No filme “Cabra-Cega” (2004), a dupla enclausurada no recinto é comunista e luta pelo fim da ditadura. Havia sido instituído que todos os “subversivos”, que eram contra o governo, deveriam ser presos ou deportados.

Em “Namíbia, Não!”, peça dirigida por Lázaro Ramos, os dois rapazes são primos, enclausurados em seus apartamentos. “Se sairmos, eles nos mandam para a África”, diz um dos personagens, referindo-se a uma medida provisória de 2016, decretada no Brasil, que “pretende reparar o erro de ter tirado os africanos de seus países. Portanto, qualquer pessoa com traços de melanina acentuada devem voltar para o continente de origem”.

O texto, de Aldri Anunciação, e interpretado por Sérgio Menezes e Fernando Santana (no dia em que estive no teatro, o ator Flávio Bauraqui foi substituído), usa esta hipótese para discutir a questão do negro na sociedade brasileira.

Usando o humor e elementos reais, os diálogos são pautados pela história. Ora, tratando de temas atuais, ora buscando referências no passado. “A inesperada e surreal retirada de todos os melaninas acentuadas do Brasil em um tempo futuro, proposto pelo texto, tem como objetivo deslocar o pensamento da plateia e estimular sensações ligadas às questões sociais do nosso país”, diz Anunciação, o autor.

O isolamento, tanto dos que estariam indo à África, como dos dois primos presos dentro do apartamento (cuidadosamente decorado com peças brancas), é um canal que permeia o texto. Refere-se, também, ao isolamento do continente africano, pouco desenvolvido. “Por que os medicamentos que controlam a Aids não chegam até lá, primo?”, um deles questiona.

E refere-se ao isolamento econômico, social. “A economia prevê que deve haver um lugar onde a miséria tem de ser depositada”, explica um dos primos. As periferias, então, seriam isolamentos econômicos. Como a África vem sendo há anos.

E no meio de tantas “solidões”, há de se cruzar as clausuras das duas duplas: a comunista e a negra. Enquanto via um, me lembrava do outro. Me perguntava se o isolamento faz parte da sociedade que, muitas vezes, não convive bem com seu semelhante – vide exemplos históricos como a guerra contra os judeus.

E eis que um dos primos me chama à luz com a seguinte citação: “…e foi então que a pele de todos os seres humanos viraram espelhos….espelhos que contornavam detalhes dos nossos corpos, como um tecido que nos protegia de nós mesmos.”

Lutar por seus direitos ainda é algo digno. E ainda não alcançamos a democracia como ela é vendida por aí: em uma lata, em que o rótulo muda ao sabor do freguês. Quiçá a teremos um dia. Porque ainda estamos cegos.

A peça

Lázaro Ramos escolheu bem a forma de estrear no teatro adulto. Texto muito bom e perfeitamente interpretado pelos autores.

No meio da encenação, pode-se ouvir vozes conhecidas que interagem nas cenas. Wagner Moura, Pedro Paulo Rangel e do próprio Lázaro.

Luiz Miranda, interpretando Glória Maria, também participa da peça, que mistura recursos visuais e auditivos às cenas.

O texto foi escrito entre 2008 e 2009. Em 2010, foi agraciado com os prêmios de Funarte de Teatro Myriam Muniz e Fapex Teatro, por sua dramaturgia.

Serviço:

Namíbia, Não! – Teatro de Arena Eugênio Kusnet (SP)

Até 17/03 – R$ 20 (inteira)

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Um dia no museu

Impressionismo, por Priscila Tieppo

Impressionismo, por Priscila Tieppo

Você entra e é aquele silêncio só. Ouve um passo ou outro. Não importa se está vazio ou cheio. As pessoas respeitam o silêncio do momento, fazem comentários em tom normal de voz.

Você está em um museu. E não importa qual é o assunto dele. Um museu é sempre um museu. É sempre uma forma de aprender um pouco mais sobre arte, literatura, música…

O passeio sugerido pelo Culturices hoje é no Masp. São dois andares e quatro exposições em cartaz, sem contar as esculturas, que ganharam um espaço no subsolo.

A exposição mais comentada é o quadro “Mulher de azul lendo uma carta“, do artista Johannes Vermeer, que ocupa um andar inteiro com apenas esta obra. São mostrados os processos de restauração da tela, pintada no século 17, e os detalhes que contam a história da obra.

Mulher de azul lendo uma carta - Vermeer

Mulher de azul lendo uma carta – Vermeer

No outro andar, três exposições. 

O museu, com design de Oscar Niemeyer, abriga obras raras de artistas renomados como Monet, Renoir (é um dos museus com mais obras do pintor), Gauguin, entre outros. Vale a pena conferir.

Na exposição denominada “Romantismo“, há 79 obras-primas que foram escolhidas e, divididas em nove seções, apresentadas ao público num painel que reúne alguns dos maiores gênios da pintura do final do século 15 aos dias de hoje.

Canoa sobre o rio Epte - Monet

Canoa sobre o rio Epte – Monet

Ao todo, 63 artistas estão na mostra, entre eles El Greco, Bosch, Turner, impressionistas como Gauguin, Van Gogh, Renoir, Monet e Manet e modernos e contemporâneos como Dali, Rodin, Matisse, Amélia Toledo, León Ferrari e Marcelo Grassmann.

Culturices destaca o quadro “A canoa sobre o rio Epte”, de Monet, e “Rosa e Azul”, de Renoir, ambos pintores impressionistas.

Esta mostra está em cartaz desde 2012 e não tem data para terminar.

Para quem gosta de esculturas, a expo “Obsessões da forma“, feita a partir do acervo do museu, reúne peças emblemáticas como “A eterna primavera”, de Rodin, e “A bailarina de quatorze anos”, de Degas.

A eterna primavera -  Auguste Rodin

A eterna primavera – Auguste Rodin

A mostra também traz como destaque “Greta Garbo”, de Ernesto De Fiori; a “Vênus”, de Pierre Renoir; “Os pássaros”, de Wesley Duke Lee; o “Par de guerreiros chineses”, da Dinastia Tang e o “Bicho alado”, de Emanuel Araújo. 

Sobre o acervo do Masp: Formado graças à combinação do tino comercial de Assis Chateaubriand (1892-1968) com o conhecimento teórico e histórico de Pietro Maria Bardi (1900-1999), o acervo do Masp é considerado o mais importante da América Latina.

Mais um motivo para conferir, já que recebemos em São Paulo muitos estrangeiros que vêm aqui apenas para visitar o Masp. Ah, e às terças a entrada é gratuita.

Para terminar a visita ao museu, circule no vão livre do Masp. O espaço aberto reúne diversas tribos e tem uma vista panorâmica da cidade. 

A victoria de Herbert Vianna

Divulgação

Divulgação

“Victoria” é o nome do quarto disco solo de Herbert Vianna, vocalista da banda Os Paralamas do Sucesso. E o nome não poderia ser mais propício.

Em tom intimista, voz e violão, o cantor repassa suas composições – feitas, na maioria das vezes, para vozes femininas – e escolhe 20 para gravar com a sua marca. Em algumas, segue a mesma cadência das originais, já outras, ganham roupagens mais “herbetianas”, se assim pode-se definir.

Todas as canções escolhidas fizeram sucesso na voz de seus intérpretes, seja para consagrar uma carreira ou lançá-la ao mundo. E é por isso que o nome do CD faz sentido. Mas não só por isso.

Passados quase 12 anos da tragédia que colocou o cantor em uma cadeira de rodas, tendo perdido o ritmo da fala e os movimentos das pernas, Herbert se mostra em forma, quando o quesito é o canto. É possível perceber que a voz e o timbre voltaram a ser o que eram antes: limpos e sem problema de dicção.

O Culturices escolheu cinco das vinte canções gravadas em estúdio, no ano passado, para analisar:

1 – “Pense Bem” – A música ficou conhecida na voz da banda Negril e levou o grupo ao sucesso com o hit sobre uma separação. Herbert optou  por manter o ritmo do grupo, mas trocou o som que pendia para o pop com pegada de reggae para um ar mais intimista, voz e violão, que segue em todo disco.

2 – “Só pra te mostrar” – Gravado por Daniela Mercury, a música evidenciou o auge da cantora como uma voz da MPB e não só do axé. Mas na voz de Herbert, a música ganhou um tom mais “classudo”. Na versão original, o cantor divide a canção com a musa baiana.

3 – “Derretendo Satélites”– Hit conhecido na voz de Paula Toller, vocalista do Kid Abelha, que, assim como Vianna, decidiu seguir carreira solo. Esta música foi um dos marcos desta fase “solitária” de Paula.

4 – “Um amor, um lugar” – Essa música já foi gravada pelo próprio Paralamas, mas ganhou força na voz de Fernanda Abreu, com quem Herbert dividiu a gravação da canção. O cantor faz parte da carreira de Fernanda desde o começo, tendo produzido o seu primeiro disco.

5 – “Nada por mim” – A música foi composta para Marina Lima, que a gravou e assistiu inúmeras versões para a composição (linda, diga-se). Ney Matogrosso e Kid Abelha estão na lista. Agora, é a vez de Herbert dar sua versão.

O CD completo pode ser ouvido no site oficial do cantor, aqui. Ou no YouTube, aqui.