Onde os alternativos têm vez

Seu Alceu visto do buraco da fechadura - Divulgação

Seu Alceu visto do buraco da fechadura – Divulgação

Esta semana, li uma matéria sobre a distribuição da verba destinada à cultura por meio da (polêmica) lei Rouanet. No topo da lista, Claudia Leitte foi autorizada a captar R$ 5,8 milhões para a turnê de 12 shows que fará nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, entre maio e julho deste ano.

Esta lei serve para beneficiar, antes de tudo, empresas com descontos em impostos ao investir em projetos culturais. É um benefício às avessas. E o alternativo, onde tem vez? E os projetos culturais que realmente representariam e país e, assim, levariam conhecimento de fato?

Estava em meio a estas perguntas quando fui ao teatro neste sábado. Entrei. Era uma casa adaptada para projetos culturais. Linda. Lá dentro, uma exposição dos 10 anos de uma apresentação teatral que fez parte do Festival de Curitiba. Tudo bem se ninguém se lembrava daquele espetáculo. O ator e diretor Rodolfo Lima queria comemorar o que considera sua maior conquista profissional e cultural.

“Réquiem para um rapaz triste” é uma peça inspirada nos contos de Caio Fernando Abreu, seu escritor de cabeceira. Rodolfo cria Alice para falar com o público sobre a obra do autor gaúcho, homossexual assumido.

E, dentro desta mostra que ele criou, ainda há a peça “Bicha Oca”, em que divide o palco com João Pedro Matos, ator baiano que se jogou no projeto sem nenhuma rede de proteção. “Eu era ator de performances, não tinha fala, nem nada, e o Rodolfo me chamou para o projeto. No primeiro ensaio, ele já estava chorando logo na primeira cena e eu pensei: ‘Vou abraçar, o cara é bom'”, contou o ator.

“Bicha Oca” é uma peça inspirada nos contos homossexuais de Marcelino Freire. O título vem de uma frase do Seu Alceu, personagem central da peça: “Bicha devia nascer vazia, oca. (…) A gente devia ter um peru no lugar do coração, porque assim alguém te comia no Natal”, diz o amargurado senhor.

Alceu sofre com os casos mal resolvidos, com a solidão, com o amor que faltou em suas relações. Sofre com o fato de ter sempre que esconder sua homossexualidade em décadas passadas e reclama da atual condição gay, às vezes. Critica a Parada Gay, os beijos dados na rua, os amores escancarados. Talvez porque nunca tivesse tido um. “No meu tempo não tinha isso, não”, diz.

Ele descreve as relações com meninos desde a infância. Relata os casos e chega à conclusão de que o amor não era pra ele. Porém, aparece o Menino, assim mesmo, sem nome. Podia ser fruto da imaginação dele ou um fantasma das relações passadas, mas não. O Menino está lá, esperando Alceu.

Rodolfo se doa ao personagem muito além de ter mergulhado na obra de Freire. Constrói com a ajuda de amigos e com muita força de vontade sua própria história.

Foram cinco semanas intensas, apresentando três peças da sua mostra. Peças dirigidas e atuadas por ele em um dos quartos da casa antiga localizada na Vila Mariana, bairro de São Paulo. Ele ocupou uma casa por conta própria e escreveu sua história na parede dela, mostrou seu trabalho e foi ovacionado a cada apresentação.

Contou com a presença do escritor Lourenço Mutarelli e do próprio Marcelino Freire na plateia. “Fabiana Coza ia vir também, mas no dia acabou ficando presa no trânsito”, contou Rodolfo.

Pois é. Onde os alternativos têm vez? Apenas em suas próprias vontades, sem incentivos do governo. Em São Paulo, ainda temos uma gama de grupos teatrais que têm investimentos da prefeitura. Com o dinheiro destinado a cantores com nome forte na mídia, muitos projetos seriam beneficiados. E eu não falo de projetos amadores, falo de projetos bacanas, que têm o que dizer. Mas empresas querem atrelar sua marca a nomes conhecidos, garantindo assim, pela forma mais fácil, o retorno financeiro.

Quem está preocupado com a cultura do país? É a pergunta que fica.

Nota: infelizmente, a mostra de “Réquiem – 10 anos” chegou ao fim ontem. E eu também fiquei muito triste de não ter podido ver tudo.

Milton Nascimento: um movimento

Milton Nascimento - Divulgação

Milton Nascimento – Divulgação

A primeira vez que ouvi falar de Milton Nascimento eu era criança ainda. Lembro-me que o citaram como o dono da voz mais bonita do Brasil. Lembro-me que contaram que Elis Regina dizia que se Deus tivesse uma voz, seria a de Milton. Eu estava muito jovem ainda pra entender a importância e o peso da voz dele.

Milton Nascimento é daqueles cantores que a maturidade traz o gosto. Eu cresci, fui ler sobre música e (re)descobri Milton. Talvez tenha sido com a música “Amigo”, citada sempre como a preferida de Ayrton Senna (e tocada muitas vezes após a morte do piloto de Fórmula 1), não me lembro.

A voz me tocou mais tarde, em estudos sobre a Ditadura Militar, outro tema pelo qual me interesso muito. Veio com a canção “Nada será como antes”, que fez parte do disco “O Milagre dos Peixes” (1973), praticamente todo censurado na época.

Depois desta censura, Milton passou a se apresentar em faculdades públicas que resistiam contra a repressão militar.

Sempre quieto, sempre na sua. Voz e letras cortantes. Milton é um movimento completo, como disse Caetano Veloso em uma entrevista. Movimento completo e de qualidade. Tanta qualidade, que sua fama ultrapassou fronteiras. O mineirinho já fez show nos quatro cantos do planeta e recebe elogios de figuras internacionais importantes até hoje.

Mas o que eu quero dizer é que nada do meu gosto, nada que tenha lido sobre se compara ao fato de estar recentemente onde o Clube da Esquina, movimento musical mineiro que tomou conta do Brasil, nasceu.

Ali, no bairro boêmio de Santa Tereza, em Belo Horizonte, tudo faz sentido. Muitas bandas e cantores mineiros se formaram ali, nas esquinas daquele lugar. E eu, admirada ao descobrir que tudo começou ali, passei a gostar muito do lugar. Sou uma mineirinha de coração. Quem me conhece, sabe.

O Clube da Esquina, com inspirações do rock dos anos 60/70, nasce com Milton e os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô). Aos fãs dos Beatles e The Platters novos integrantes vieram juntar-se: Flávio Venturini, Vermelho, Tavinho MouraToninho HortaBeto Guedes e o letrista Fernando Brant. O nome foi ideia de Márcio, que sempre ouvia a mãe perguntar dos filhos e alguém responder: “estão ali na esquina tocando”.

Em 1972, a EMI gravou o primeiro LP, “Clube da Esquina”, apresentando um grupo de jovens que chamou a atenção pelas composições engajadas, a miscelânea de sons e riqueza poética. O cantor e compositor Tavito faz referência às saudades do Clube da Esquina na música Rua Ramalhete, local onde eles se reuniam para tocar.

Ali no bairro de Santa Tereza, bem perto à praça, há um bar que se chama Bolão. Este é o bar onde os cantores da região se reuniam. Não à toa, as paredes do boteco são decoradas com inúmeros discos de ouro e de platina dos artistas, que levaram os quadros ao local como forma de agradecimento. Ali estão quadros de Lô Borges, que assim como Milton seguiu carreira solo depois do Clube.

Santa Tereza é um bairro que lembra e inspira música. E que lembra muito o Clube da Esquina. Por isso, sua importância no cenário cultural mineiro. Santa Tereza cheira lembranças, tem o cheiro doce dos tempos de qualidade musical.

Milton, menino

Quando criança, Milton morava em Três Pontas, interior de Minas. Perdeu a mãe muito cedo e desde pequeno teve de aprender a se virar. Mostrava habilidade com instrumentos como a gaita e, aos 13 anos, ganhou seu primeiro violão.

Sozinho, sempre quieto, ele se aproxima dos irmãos Borges e, ao chegar à fase adulta, vai encontrá-los em Belo Horizonte, onde se torna letrista e cantor do que viria a ser o Clube da Esquina.

Milton Nascimento é a voz masculina mais bonita do Brasil. E, além disso, traz em suas obras espaçadas, sem a pressão de gravadoras ou sem seguir movimentos comerciais, o melhor da música brasileira.

Para encerrar, conto aqui a emoção do reencontro com a obra de Milton, o Bituca. Foi ao ouvir por completo o disco “Minas” (1975). Uma das obras mais aclamadas do cantor e que traz as  canções “Fé Cega Faca Amolada”, “Beijo Partido” e “Ponta de Areia”, entre outras. Estas três estão entre as minhas preferidas dele.

Na lista, acrescento duas mais recentes: “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” (2002) e “Outro Lugar” (2002), ambas do disco “Pietá”, cujo show foi considerado o melhor daquele ano. Mas é impossível limitar a lista a cinco canções.

“Bola de meia, bola de gude”, “Certas Canções”, “Caçador de Mim”, “Maria, Maria”, “Travessia” e tantas outras clássicas.

Há Miltons para todas as ocasiões e momentos da vida.

Cortante como Haneke

Cartaz de divulgação de "Amor"

Cartaz de divulgação de “Amor”

Você vai escolher. Se for assistir “Amor”, de Michael Haneke, a sensação pode ser de reflexão ou profunda tristeza. Ou os dois. Mas nada disso tirará do filme a beleza e os motivos que o levaram a ser uma dos filmes indicados ao Oscar, em cinco categorias. Além de já ter ganhado a Palma de Ouro em Cannes como melhor filme, e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

É dolorido, não dá pra negar. O filme trata da velhice e do mal de alzheimer. Um casal de idosos só tem um ao outro para contar. Ao desenvolver a doença, o marido resolve cuidar da mulher até o fim. E faz de tudo para que ela se sinta bem.

Com uma interpretação impecável, Emanuelle Riva, de 85 anos, é uma das indicadas do Oscar de melhor atriz. E realmente ela merece vencer.

Deixando as indicações à parte, é importante dizer que o filme é cru. O cenário é um apartamento e o cotidiano, a rotina mostrada no filme, é altamente explorada para escancarar a realidade dos idosos. Com câmeras fixas e sem tantas oscilações, o filme é seco e, talvez por isso, se torne tão real.

Em meio a tudo isso, uma filha alienada ao problema, que tenta convencer o pai a colocar a mulher em uma casa de repouso. Coisa que ele nega com uma frase em que expõe o egoísmo humano.

Envelhecer não é nada fácil. Mas ao ver o filme, se torna um pouco mais difícil. Haneke, diretor conhecido por suas obras cortantes – como “A Fita Branca (2009)” e “A Professora de Piano (2000)” -, não deixa a desejar neste filme: corta como lâmina.

A beleza do filme está, no entanto, no companheirismo do casal, no amor – palavra que dá nome ao filme e faz muito sentido. “Amor” não é fácil de ver, mas também pode ser muito bonito.