A divina maravilhosa na Virada

Gal Costa canta na Virada -  Daia Oliver/ R7

Não tenho dúvidas de que se ouvisse o show de Gal Costa em um ambiente fechado aproveitaria muito mais. Mas quem disse que eu não desfrutei? Durante apresentação na Virada Cultural, no último sábado (18), Gal mostrou à imensa multidão seu show “Recanto”.

A nova turnê da cantora contempla alguns sucessos de sua carreira com as músicas novas do disco produzido por Caetano Veloso, assim como o show.

Pra começar a animar o público, Gal cantou “Divino Maravilhoso”, um dos hinos do Tropicalismo. “São Paulo é minha cidade também.  A cidade onde tudo começou, onde o Tropicalismo começou”, disse.

Depois, vieram “Baby”, “Vapor Barato”, “Meu Bem, Meu Mal”, “Folhetim”, “Barato Total”,  misturadas às novas canções. Em “Um Dia de Domingo”, que interpretava com Tim Maia, Gal conseguiu imitar o timbre de voz do cantor já falecido e seus trejeitos. O público foi ao delírio.

Com tanta presença de palco, tanta volúpia e sensualidade em um vestido preto, o show de Gal Costa sagrou-se como um dos melhores da Virada deste ano.

Antes de ir embora, porém, ela deixou todos com gostinho de “cravo e canela” na boca cantando o tema da minissérie “Gabriela”.

Ousado o desafio de adaptar um show feito para lugares fechados para ao ar livre, sem abrir mão da banda maravilhosa, que conta com Pedro Baby. Uma ousadia que deu certo. Mas tenho a certeza de que se estivesse em um lugar fechado ouviria muito mais as nuances do show delicado de Gal. A beleza ficou por conta da voz, repertório e do ícone.

Um uruguaio que ama o Brasil

Jorge Drexler - Priscila Tieppo

A admiração que sobra em Jorge Drexler à cultura brasileira, principalmente a música, salta aos olhos. Brasileiros que pouco conhecem o próprio quintal jamais entenderiam um uruguaio se apaixonar tanto por cantores e compositores do nosso país. Fato é que temos um dos cenários culturais mais interessantes do mundo. E Drexler sabe disso.

Quase brasileiro. Fala português com clareza, apesar de escorregar com expressões como “mais grande” e é fã de Caetano Veloso e Arnaldo Antunes. Em suas canções já fez referências aos dois brasileiros e já citou cidades como Salvador.

Ele era o artista estrangeiro perfeito para fechar a Virada Cultural e o fez. Entrou no palco para passar o som e diante da animação do público teve de explicar que era apenas “um treino para o concerto”.

Ao voltar, às 18h em ponto, fez de fato o que todos esperavam: cantou, dançou, conversou, se empolgou e, no final, concedeu duas voltas ao palco.

No repertório incluiu três canções de Caetano: “Sampa”, “Fora da Ordem” e “Dom de Iludir”. De Arnaldo Antunes, do Titãs, ficou com “Disneylândia”, que faz parte de um dos seus discos.

Homenagens feitas ao Brasil, o resto foi uma mistura de todos os discos do cantor. Entre os hits, estavam “Amar la trama”, “Deseo”, “Todo se Transforma”, “Sea”, “Al otro lado del rio”, entre outras.

Drexler parecia realmente grato por poder cantar para uma multidão ao ar livre e a todo momento agradecia a oportunidade. Chamou os paulistas de “queridos” diversas vezes e terminou o show ajoelhado no palco reverenciando os fãs. Lindo.

Mas, antes, cantou sua gratidão com “Me Haces Bien”, dizendo que o público paulistano fazia muito bem a ele. A música foi improvisada em um bis improvisado. Após já ter voltado, o cantor foi convidado pelo locutor do palco Júlio Prestes a retornar ao palco. “Não tinha preparado nada para agora”, disse, encabulado. Mas cantou para a alegria dos que não arredavam o pé do lugar.

É, sem dúvida, um dos cantores mais talentosos da América Latina. Que ele volte logo para nos visitar.  Porque ele nos faz muito bem também.

Viciei em Novos Baianos

Divulgação

Divulgação

Um pouco tardia esta confissão. Mas aconteceu esses dias: eu viciei no disco “Acabou Chorare” (1972), dos Novos Baianos. Ícone nos tempos da Tropicália, o grupo ganhou força no cenário da MPB misturando bossa nova, rock, frevo, baião, samba e afoxé. Tipicamente brasileiro, com as nuances que identificam o Brasil de norte a sul.

Movimento de contracultura, essencialmente baiano, como o nome. Formado por Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Paulinho Boca de Cantor, Dadi e Luiz Galvão, o grupo iniciou os trabalhos em 1969. Baby era a única mulher e não-baiana do time.

Não vou me estender sobre a história do grupo. Estou aqui divagando nas músicas deste disco que se tornou meu vício.

Me lembrei do dia em que vi o trio elétrico de Moraes Moreira em Salvador. Ver o trio dele é uma obrigação até para o mais “axezeiro” dos turistas. Moraes, que jamais abandonou a guitarra elétrica, é o autor de “Lá vem o Brasil descendo a Ladeira”. Esta canção foi feita num momento “relax” do cantor (podemos dizer assim) que viu no andar de uma mulata descendo a ladeira o Brasil.

Mas voltando ao disco, que foi o segundo lançado pelo grupo, a música de abertura é “Brasil Pandeiro” – até hoje cantada em homenagem ao nosso país. Depois dela, uma sucessão de hits: Preta Pretinha, Tinindo Trincando, A Menina Dança e Besta é Tu.

Em votação feita com especialistas, em 2007 a revista “Rolling Stone” elegeu este disco como “o maior da música brasileira de todos os tempos”.

Mas entre as preferidas, destaco “Mistério do Planeta”:

O refúgio

Para fazer parte do grupo, além de tocar junto, eles deveriam morar sob o mesmo teto. Os Novos Baianos era uma filosofia, way of life.

Dá para dizer que cada um dos “lados” do LP “Acabou Chorare” foi arquitetado em endereços distintos. O A no apartamento em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde os Novos Baianos aquartelavam-se; e o B no sítio-comuna alugado em Jacarepaguá, Zona Oeste.

Na plaqueta em formato de bandeira do Brasil afixada na porteira do sítio, onde se deveria ler “Ordem e Progresso” estava escrito “Cantinho do Vovô”. De 1971 a 1975, o combo se resguardou das agruras militares no retiro que também foi lar, estúdio e campo de futebol – três das coisas que mais interessavam a todos ali conjugados.

No Cantinho do Vovô, o samba cinco estrelas dos Novos Baianos pulsava suave, contente e distorcidamente roqueiro.

Tendo João Gilberto como padrinho, o nome do disco é uma expressão usada pela filha do cantor baiano, Bebel Gilberto, que após cair soltou esta frase para tranquilizar o pai: “Não machucou papai, Acabou Chorare.”

A madrinha Baby Consuelo lê o significado da frase vinculado ao cerco político repressor daqueles dias. “Esotericamente saídas da boca de uma criança, tais palavras nos mostravam que chegara a hora de acabar com o choro. Tínhamos lacrimejado demais. Queríamos o Brasil alegre de volta”, metaforizou Baby, em entrevista à “Rolling Stone”.

As letras feitas sob efeitos de LSD e outras drogas marcaram o estilo hippie do grupo. As músicas podiam ser criadas embaixo de uma árvore, em um palco improvisado no meio de uma sala e tinham o mesmo efeito: exaltar a cultura brasileira e misturar ritmos que soavam bem aos ouvidos jovens daquela época de repressão.

Atualmente, os músicos principais tocam suas carreiras-solo. Baby e Pepeu, que foram casados por muitos anos e tiveram filhas (às quais deram nomes estranhos), tornaram-se evangélicos. Moraes Moreira, o primeiro a sair do grupo para cantar sozinho, escreveu um livro sobre a história dos Novos Baianos e segue relembrando hits daquela época em seus shows.

Bora ouvir o disco?