Viciei em Novos Baianos

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Um pouco tardia esta confissão. Mas aconteceu esses dias: eu viciei no disco “Acabou Chorare” (1972), dos Novos Baianos. Ícone nos tempos da Tropicália, o grupo ganhou força no cenário da MPB misturando bossa nova, rock, frevo, baião, samba e afoxé. Tipicamente brasileiro, com as nuances que identificam o Brasil de norte a sul.

Movimento de contracultura, essencialmente baiano, como o nome. Formado por Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Paulinho Boca de Cantor, Dadi e Luiz Galvão, o grupo iniciou os trabalhos em 1969. Baby era a única mulher e não-baiana do time.

Não vou me estender sobre a história do grupo. Estou aqui divagando nas músicas deste disco que se tornou meu vício.

Me lembrei do dia em que vi o trio elétrico de Moraes Moreira em Salvador. Ver o trio dele é uma obrigação até para o mais “axezeiro” dos turistas. Moraes, que jamais abandonou a guitarra elétrica, é o autor de “Lá vem o Brasil descendo a Ladeira”. Esta canção foi feita num momento “relax” do cantor (podemos dizer assim) que viu no andar de uma mulata descendo a ladeira o Brasil.

Mas voltando ao disco, que foi o segundo lançado pelo grupo, a música de abertura é “Brasil Pandeiro” – até hoje cantada em homenagem ao nosso país. Depois dela, uma sucessão de hits: Preta Pretinha, Tinindo Trincando, A Menina Dança e Besta é Tu.

Em votação feita com especialistas, em 2007 a revista “Rolling Stone” elegeu este disco como “o maior da música brasileira de todos os tempos”.

Mas entre as preferidas, destaco “Mistério do Planeta”:

O refúgio

Para fazer parte do grupo, além de tocar junto, eles deveriam morar sob o mesmo teto. Os Novos Baianos era uma filosofia, way of life.

Dá para dizer que cada um dos “lados” do LP “Acabou Chorare” foi arquitetado em endereços distintos. O A no apartamento em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde os Novos Baianos aquartelavam-se; e o B no sítio-comuna alugado em Jacarepaguá, Zona Oeste.

Na plaqueta em formato de bandeira do Brasil afixada na porteira do sítio, onde se deveria ler “Ordem e Progresso” estava escrito “Cantinho do Vovô”. De 1971 a 1975, o combo se resguardou das agruras militares no retiro que também foi lar, estúdio e campo de futebol – três das coisas que mais interessavam a todos ali conjugados.

No Cantinho do Vovô, o samba cinco estrelas dos Novos Baianos pulsava suave, contente e distorcidamente roqueiro.

Tendo João Gilberto como padrinho, o nome do disco é uma expressão usada pela filha do cantor baiano, Bebel Gilberto, que após cair soltou esta frase para tranquilizar o pai: “Não machucou papai, Acabou Chorare.”

A madrinha Baby Consuelo lê o significado da frase vinculado ao cerco político repressor daqueles dias. “Esotericamente saídas da boca de uma criança, tais palavras nos mostravam que chegara a hora de acabar com o choro. Tínhamos lacrimejado demais. Queríamos o Brasil alegre de volta”, metaforizou Baby, em entrevista à “Rolling Stone”.

As letras feitas sob efeitos de LSD e outras drogas marcaram o estilo hippie do grupo. As músicas podiam ser criadas embaixo de uma árvore, em um palco improvisado no meio de uma sala e tinham o mesmo efeito: exaltar a cultura brasileira e misturar ritmos que soavam bem aos ouvidos jovens daquela época de repressão.

Atualmente, os músicos principais tocam suas carreiras-solo. Baby e Pepeu, que foram casados por muitos anos e tiveram filhas (às quais deram nomes estranhos), tornaram-se evangélicos. Moraes Moreira, o primeiro a sair do grupo para cantar sozinho, escreveu um livro sobre a história dos Novos Baianos e segue relembrando hits daquela época em seus shows.

Bora ouvir o disco?

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