Palanque – 1ª edição

Sei que o tema do blog não condiz com o texto que vem a seguir, mas decidi criar este espaço para que possamos debater assuntos em voga. E quem disse que isso não é cultura?

Tema de hoje: Não coloque o preconceito e Deus no meio!

O palanque está aberto. Testei os microfones. Posso falar?

Eu queria que alguém que é contra um desses assuntos que se destacam nos últimos tempos me desse uma explicação que não trouxesse “Deus” no meio. Uma só. Ah, que também não tivesse a expressão: contra a moral e os bons costumes.

Refiro-me aos temas tidos como polêmicos: aborto, campanhas para prostitutas, garantir direitos aos casais homossexuais…

Para todos existe um viés religioso: usar camisinha é contra a igreja, aprovar o casamento gay é contra a bancada evangélica, abortar é um crime perante Deus.

Ok, cada um tem direito a ter sua fé e suas crenças. Mas me preocupa quando este direito garantido pelo Estado – que se diz laico – afeta os direitos de outras pessoas que podem, se assim decidirem, ser ateus. Ele é menos cidadão por isso? Ou ainda, acreditam em Deus, mas não nos argumentos apresentados para ter direito sobre si mesmo.

É isso que acontece. Querem decidir o que você tem de ser, desde sempre.

Aprovar ou não, acredito, não é o que impedirá algo de acontecer. Porque já acontece.

Começamos pela polêmica da propaganda do Ministério da Saúde para a prevenção da Aids em prostitutas. As profissionais do sexo, agora, não podem mais serem felizes. Descobriram isso na declaração do deputado João Campos (PSDB-GO), da bancada evangélica.

Ele disse: “Eu estou imaginando aqui os títulos das próximas campanhas: “sou adúltero e sou feliz”, “sou incestuoso, sigam-me”, “sou polígamos, me acompanhem”, “sou pedófilo, observem-me, sou feliz, estou realizado”, referindo-se ao texto da campanha que diz: “Sou feliz por ser prostituta”.

Do alto da sua incoerência, execrou uma parte da população que existe há anos. Ser “mulher da vida” sempre foi algo a ser escondido. Uma dessas profissionais resolve, então, mostrar sua cara em uma campanha de saúde e vê cargos sendo exonerados por conta disso. Até quando “a moral” vai continuar impedindo que pessoas morram por falta de informação? Negar o direito à informação e a cuidados médicos é correto?

Pois bem, passamos agora à questão do aborto. Milhares de mulheres morrem ou ficam com alguma sequela devido a procedimentos de aborto malfeitos. Impedir que essas mulheres façam isso em um hospital, com aparato, não vai mudar a decisão que elas tomam de não ter aquele filho naquele momento.

Hoje no Brasil, ainda bem, é possível abortar depois de um estupro ou quando a mãe corre risco de vida.

Mas, mesmo assim, o Estado continua querendo ter direito sobre o corpo de mulheres que querem abortar por inúmeras outras razões. E aí, mais explicações religiosas aparecem: “é um ser, você está matando uma criança que Deus enviou a você”.

Claro, acho que todo procedimento cirúrgico deve ser feito com responsabilidade e não acredito naquela máxima de que as mulheres usariam isso como um método contraceptivo.

Já na questão dos casais homossexuais, amplamente debatido após Daniela Mercury assumir o namoro com uma mulher e, por extensão, sua participação na Parada Gay, que aconteceu em São Paulo na semana passada, defendo a ideia de que direitos garantidos devem ser para todos.

Se um heterossexual pode casar perante a lei, os homossexuais também podem. Se um hetero pode colocar sua mulher como dependente em um clube da cidade, o gay também pode. É simples. E não venham com aquela: “É contra a Bíblia” ou “é contra Deus”. Por favor, não mostre assim que você não tem argumentos.

Tirando a parte religiosa, alguns soltam: “Meus filhos vão ver dois homens se beijando”. Vão. E se você for consciente eles serão tolerantes e aprenderão conviver com as diferenças. Como já fazem ou deveriam fazer.

Garantir direitos é um dever do Estado, quer seus representantes concordem ou não.  E em quê o direito do outro vai ferir o seu?

Por isso, continuo sem entender as incoerências das pessoas que levantam a voz para desfavorecer o outro, sem ao menos conhecê-lo, sem vê-lo como cidadão. E é por essas e outras que o Brasil torna-se atrasado.

Uma sociedade justa não é a sociedade que andam pintando pra gente, “a nova classe C”, o exército de consumidores que formam. Uma sociedade só cresce quando sua população tem acesso à educação e, por consequência, aprende a respeitar o direito dos seus conterrâneos. E mais: pode lhe garantir o direito a um atendimento clínico, o acesso à saúde, sem preconceitos.

Câmbio, desligo!

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Duas vezes Renato Russo

Cena de Faroeste Caboclo - Divulgação

Cena de Faroeste Caboclo – Divulgação

Acabou o filme e lá estavam os espectadores ainda sentados, sem fazer menção de sair, ouvindo e cantando a música que inspirou o longa. Os créditos vão subindo e é como se a música fosse um resumo do filme. Ou o filme foi um resumo da música.

Fato é que a cada cena de Faroeste Caboclo, que estreou esta semana nos cinemas nacionais, a música “cantava” na cabeça.

A adaptação, feita por René Sampaio, fã incondicional de Renato Russo e da Legião Urbana, destrinchou uma das músicas mais longas do roqueiro. Quando ela foi lançada, difícil era encontrar alguém que não a tivesse decorado.

A história ia formando imagens, à medida que a saga de João de Santo Cristo era contada. Agora, as imagens podem ser vistas no cinema.

Tirando as “organizações cronológicas” que não são seguidas e a inclusão de personagens (essenciais para o desenrolar da história) a adaptação é bem fiel.

João (Fabrício Boliveira) chega à Brasília “vendo as luzes de Natal” e quer mudar de vida. Conhece Maria Lúcia (Isis Valverde) e “dizia que queria se casar”. Jeremias (Felipe Abib), “o bandido traidor”, casa-se com a mocinha enquanto João está na prisão.

A história, apesar de ter sido escrita em 1979 por Renato Russo – que dizia querer ter a sua “Hurricane” (canção de Bob Dylan que também conta uma história) -, segue atual com a questão do tráfico de drogas, mesmo sendo ambientada na Brasília dos anos 80.

A fotografia do filme é perfeita. Além, claro, da bela interpretação dos atores, sem exageros e bastante verossímil. Felipe Abib é um dos atores que estão despontando na mídia artística. Em breve, ele deve ter seu trabalho reconhecido. Atualmente, participa da série “Tapas e Beijos”, na Globo, para o qual deu um “ar novo”.

E as pessoas no cinema continuavam a cantar a música do filme que acabavam de ver. “Você viu? João dá cinco tiros em Jeremias, como na música”, alguém comentou. E as semelhanças vinham a cada um dos 168 versos escritos por um dos maiores compositores do rock.

A história pela metade

Thiago Mendonça interpreta Renato Russo - Divulgação

Thiago Mendonça interpreta Renato Russo – Divulgação

“Quando fica bom, acaba”. Esse é o comentário que mais ouvi sobre “Somos Tão Jovens”, filme que retrata a vida de Renato Russo (Thiago Mendonça) e a formação da banda Legião Urbana.

O comentário foi comprovado. Partes essenciais da vida do compositor e vocalista são “esquecidas”. O recorte feito na vida do músico – apenas os anos 80 em Brasília e o início do sucesso – talvez não tenha sido o melhor para retratar Renato.

A doença que o deixa de cama por vários meses e o faz estudar muito está lá. Quando foi professor de inglês, a descoberta da sexualidade, gostar de meninos e meninas, a formação do Aborto Elétrico e o início de uma geração roqueira em Brasília também. Mas os primeiros romances homossexuais são apenas insinuados.

A história mostra muito da arrogância do cantor. Essa característica sempre foi clara em Renato. Do tipo que não leva desaforo pra casa e que, sim, tem sempre uma resposta a toda e qualquer crítica. Mas, também, a determinação de ter uma banda, a vontade de colocar para fora as angústias dos jovens da época também são fortes nas cenas.

Parte marcante do filme fica por conta da amizade dele com Ana (Laila Zaid), com quem mantém uma relação “colorida” e confidente.

Ponto para a preparação e interpretação de Thiago Mendonça que consegue transmitir até os trejeitos do cantor e ficou bastante parecido fisicamente com ele.

Porém, há de se fazer uma crítica: uma história tão rica quanto a de Renato Russo merecia um registro melhor, algo no nível do filme dedicado a Cazuza, vivido lindamente por Daniel Oliveira.

Apesar de “Cazuza – O Tempo não Para” ter ocultado o romance do cantor com Ney Matogrosso, o registro ainda é mais marcante do que o de Renato.

Espero que algum outro filme possa retratar de forma mais completa a vida do músico que marcou gerações.

Se fosse preciso escolher, ficaria com a ficção de “Faroeste Caboclo” à ficção-quase-real de “Somos Tão Jovens”.