Sobre Priscila Tieppo

Jornalista, blogueira, metida à fotógrafa, tatuada. Ama futebol, música, cinema e a noite paulistana. Escreve para três blogs e ainda trabalha... escrevendo!

Um cabaré teatral dentro do cinema

Grupo de teatro no filme "Tatuagem" - Divulgação

Grupo de teatro no filme “Tatuagem” – Divulgação

A sinopse do filme dizia que a temática era um grupo artístico que tentava resistir à ditadura militar na década de 70, em uma cidade pernambucana.

Esperava um longa de questionamentos políticos. Não que “Tatuagem” não os tenha, mas o que salta aos olhos, o que marca nesta obra de Hilton Lacerda (roteirista de “Amarelo Manga” e “A Festa da Menina Morta”) é, além das formas artísticas de combater a repressão, o romance homossexual entre um recruta do exército e um diretor de teatro.

Clécio (Irandhir Santos) é o diretor do grupo “Chão de Estrelas”. Os atores e produtores vivem juntos em uma casa, fato que me lembrou muito o grupo Novos Baianos, com Moraes Moreira e Baby Consuelo.

Eles decidem viver juntos e compartilham as tarefas da casa, as produções dos espetáculos, a comida, as bebidas, a maconha.

As peças e esquetes produzidas pelo grupo são sempre críticas contra a repressão e a favor da liberdade sexual. Uma música que é cantada e representada pelo grupo ilustra isto. Com o refrão “tem cu, tem cu, tem cu”, os artistas querem dizer: “é o órgão mais democrático do corpo humano, todo mundo tem, e pode ser usado como você quiser”.

Em algumas cenas, mesmo dentro do cinema, parecia que estava num espetáculo de teatro de Zé Celso. Corpos, pênis e bundas expostas, mas tudo muito natural, dentro do contexto.

Fininha e Clécio se apaixonam - Divulgação

Fininha e Clécio se apaixonam – Divulgação

O romance de Fininha (Jesuíta Barbosa) e Clécio é o tempo o todo romântico. As cenas de sexo não chegam a ser ofensivas, são tranquilas e bonitas.

O público, talvez, ainda seja resistente a ver dois homens transando na telona. Mas este também é um ponto a ser refletido e um caminho para o respeito. Se vejo casais héteros transando no cinema, qual é o problema de ver um casal homossexual? Vejo o cinema, a arte em geral, como grande contribuinte neste quesito.

Mas, voltando ao filme, “Tatuagem” é um dos marcos atuais do cinema brasileiro. Em tempos em que as produções pernambucanas tanto tem se destacado, é importante prestar a atenção em obras transgressoras como esta.

Entre no cinema, sinta-se em um teatro, em um cabaré, e me conte depois o que achou.

The Boss e o melhor show do Rock in Rio

Bruce-Springsteen

Acostumados a relembrar o show memorável do Queen na edição do Rock in Rio de 1985 e analisando as apresentações anteriores como “justas”, cumprindo seus papeis, fomos “obrigados” a nos curvar diante de Bruce Springsteen e dizer: melhor show dessa edição e terá seu lugar cativo ao lado de Queen na história do festival.

Já estava de joelhos cantando as famosas canções do astro quando me dei conta de que o cara não parava um minuto e estava há quase três horas regendo milhões na Cidade do Rock, no Rio. E daí fui pesquisar: The Boss fará 64 anos amanhã. Mas parecia um roqueiro de 20 anos.

Gênio. Sabe agradar e conquistar diversos públicos e faz do seu show um espetáculo impecável. Para os roqueiros é um exemplo de como fazer uma apresentação que passa longe da burocracia, do “cumpridor de metas”, e expõe as vísceras, o tesão, a energia sexual transformada em rock. Falta muito isso nos dias de hoje.

Tesão também é a palavra que define o brilho nos olhos de cada um que faz parte daquela banda. Todos cantando sorrindo, se divertindo, acompanhando o mestre Bruce que não se limitava a ser um frontman. Não. Ele dividia bem seu tempo entre estar ao lado dos músicos e em constante contato e sintonia com a plateia.

Bruce Springsteen mostra ao público o que é respeito por seu ingresso, o que é se divertir num show de verdade e o mais importante: o que é o rockstar de verdade.

Palanque – 1ª edição

Sei que o tema do blog não condiz com o texto que vem a seguir, mas decidi criar este espaço para que possamos debater assuntos em voga. E quem disse que isso não é cultura?

Tema de hoje: Não coloque o preconceito e Deus no meio!

O palanque está aberto. Testei os microfones. Posso falar?

Eu queria que alguém que é contra um desses assuntos que se destacam nos últimos tempos me desse uma explicação que não trouxesse “Deus” no meio. Uma só. Ah, que também não tivesse a expressão: contra a moral e os bons costumes.

Refiro-me aos temas tidos como polêmicos: aborto, campanhas para prostitutas, garantir direitos aos casais homossexuais…

Para todos existe um viés religioso: usar camisinha é contra a igreja, aprovar o casamento gay é contra a bancada evangélica, abortar é um crime perante Deus.

Ok, cada um tem direito a ter sua fé e suas crenças. Mas me preocupa quando este direito garantido pelo Estado – que se diz laico – afeta os direitos de outras pessoas que podem, se assim decidirem, ser ateus. Ele é menos cidadão por isso? Ou ainda, acreditam em Deus, mas não nos argumentos apresentados para ter direito sobre si mesmo.

É isso que acontece. Querem decidir o que você tem de ser, desde sempre.

Aprovar ou não, acredito, não é o que impedirá algo de acontecer. Porque já acontece.

Começamos pela polêmica da propaganda do Ministério da Saúde para a prevenção da Aids em prostitutas. As profissionais do sexo, agora, não podem mais serem felizes. Descobriram isso na declaração do deputado João Campos (PSDB-GO), da bancada evangélica.

Ele disse: “Eu estou imaginando aqui os títulos das próximas campanhas: “sou adúltero e sou feliz”, “sou incestuoso, sigam-me”, “sou polígamos, me acompanhem”, “sou pedófilo, observem-me, sou feliz, estou realizado”, referindo-se ao texto da campanha que diz: “Sou feliz por ser prostituta”.

Do alto da sua incoerência, execrou uma parte da população que existe há anos. Ser “mulher da vida” sempre foi algo a ser escondido. Uma dessas profissionais resolve, então, mostrar sua cara em uma campanha de saúde e vê cargos sendo exonerados por conta disso. Até quando “a moral” vai continuar impedindo que pessoas morram por falta de informação? Negar o direito à informação e a cuidados médicos é correto?

Pois bem, passamos agora à questão do aborto. Milhares de mulheres morrem ou ficam com alguma sequela devido a procedimentos de aborto malfeitos. Impedir que essas mulheres façam isso em um hospital, com aparato, não vai mudar a decisão que elas tomam de não ter aquele filho naquele momento.

Hoje no Brasil, ainda bem, é possível abortar depois de um estupro ou quando a mãe corre risco de vida.

Mas, mesmo assim, o Estado continua querendo ter direito sobre o corpo de mulheres que querem abortar por inúmeras outras razões. E aí, mais explicações religiosas aparecem: “é um ser, você está matando uma criança que Deus enviou a você”.

Claro, acho que todo procedimento cirúrgico deve ser feito com responsabilidade e não acredito naquela máxima de que as mulheres usariam isso como um método contraceptivo.

Já na questão dos casais homossexuais, amplamente debatido após Daniela Mercury assumir o namoro com uma mulher e, por extensão, sua participação na Parada Gay, que aconteceu em São Paulo na semana passada, defendo a ideia de que direitos garantidos devem ser para todos.

Se um heterossexual pode casar perante a lei, os homossexuais também podem. Se um hetero pode colocar sua mulher como dependente em um clube da cidade, o gay também pode. É simples. E não venham com aquela: “É contra a Bíblia” ou “é contra Deus”. Por favor, não mostre assim que você não tem argumentos.

Tirando a parte religiosa, alguns soltam: “Meus filhos vão ver dois homens se beijando”. Vão. E se você for consciente eles serão tolerantes e aprenderão conviver com as diferenças. Como já fazem ou deveriam fazer.

Garantir direitos é um dever do Estado, quer seus representantes concordem ou não.  E em quê o direito do outro vai ferir o seu?

Por isso, continuo sem entender as incoerências das pessoas que levantam a voz para desfavorecer o outro, sem ao menos conhecê-lo, sem vê-lo como cidadão. E é por essas e outras que o Brasil torna-se atrasado.

Uma sociedade justa não é a sociedade que andam pintando pra gente, “a nova classe C”, o exército de consumidores que formam. Uma sociedade só cresce quando sua população tem acesso à educação e, por consequência, aprende a respeitar o direito dos seus conterrâneos. E mais: pode lhe garantir o direito a um atendimento clínico, o acesso à saúde, sem preconceitos.

Câmbio, desligo!

Duas vezes Renato Russo

Cena de Faroeste Caboclo - Divulgação

Cena de Faroeste Caboclo – Divulgação

Acabou o filme e lá estavam os espectadores ainda sentados, sem fazer menção de sair, ouvindo e cantando a música que inspirou o longa. Os créditos vão subindo e é como se a música fosse um resumo do filme. Ou o filme foi um resumo da música.

Fato é que a cada cena de Faroeste Caboclo, que estreou esta semana nos cinemas nacionais, a música “cantava” na cabeça.

A adaptação, feita por René Sampaio, fã incondicional de Renato Russo e da Legião Urbana, destrinchou uma das músicas mais longas do roqueiro. Quando ela foi lançada, difícil era encontrar alguém que não a tivesse decorado.

A história ia formando imagens, à medida que a saga de João de Santo Cristo era contada. Agora, as imagens podem ser vistas no cinema.

Tirando as “organizações cronológicas” que não são seguidas e a inclusão de personagens (essenciais para o desenrolar da história) a adaptação é bem fiel.

João (Fabrício Boliveira) chega à Brasília “vendo as luzes de Natal” e quer mudar de vida. Conhece Maria Lúcia (Isis Valverde) e “dizia que queria se casar”. Jeremias (Felipe Abib), “o bandido traidor”, casa-se com a mocinha enquanto João está na prisão.

A história, apesar de ter sido escrita em 1979 por Renato Russo – que dizia querer ter a sua “Hurricane” (canção de Bob Dylan que também conta uma história) -, segue atual com a questão do tráfico de drogas, mesmo sendo ambientada na Brasília dos anos 80.

A fotografia do filme é perfeita. Além, claro, da bela interpretação dos atores, sem exageros e bastante verossímil. Felipe Abib é um dos atores que estão despontando na mídia artística. Em breve, ele deve ter seu trabalho reconhecido. Atualmente, participa da série “Tapas e Beijos”, na Globo, para o qual deu um “ar novo”.

E as pessoas no cinema continuavam a cantar a música do filme que acabavam de ver. “Você viu? João dá cinco tiros em Jeremias, como na música”, alguém comentou. E as semelhanças vinham a cada um dos 168 versos escritos por um dos maiores compositores do rock.

A história pela metade

Thiago Mendonça interpreta Renato Russo - Divulgação

Thiago Mendonça interpreta Renato Russo – Divulgação

“Quando fica bom, acaba”. Esse é o comentário que mais ouvi sobre “Somos Tão Jovens”, filme que retrata a vida de Renato Russo (Thiago Mendonça) e a formação da banda Legião Urbana.

O comentário foi comprovado. Partes essenciais da vida do compositor e vocalista são “esquecidas”. O recorte feito na vida do músico – apenas os anos 80 em Brasília e o início do sucesso – talvez não tenha sido o melhor para retratar Renato.

A doença que o deixa de cama por vários meses e o faz estudar muito está lá. Quando foi professor de inglês, a descoberta da sexualidade, gostar de meninos e meninas, a formação do Aborto Elétrico e o início de uma geração roqueira em Brasília também. Mas os primeiros romances homossexuais são apenas insinuados.

A história mostra muito da arrogância do cantor. Essa característica sempre foi clara em Renato. Do tipo que não leva desaforo pra casa e que, sim, tem sempre uma resposta a toda e qualquer crítica. Mas, também, a determinação de ter uma banda, a vontade de colocar para fora as angústias dos jovens da época também são fortes nas cenas.

Parte marcante do filme fica por conta da amizade dele com Ana (Laila Zaid), com quem mantém uma relação “colorida” e confidente.

Ponto para a preparação e interpretação de Thiago Mendonça que consegue transmitir até os trejeitos do cantor e ficou bastante parecido fisicamente com ele.

Porém, há de se fazer uma crítica: uma história tão rica quanto a de Renato Russo merecia um registro melhor, algo no nível do filme dedicado a Cazuza, vivido lindamente por Daniel Oliveira.

Apesar de “Cazuza – O Tempo não Para” ter ocultado o romance do cantor com Ney Matogrosso, o registro ainda é mais marcante do que o de Renato.

Espero que algum outro filme possa retratar de forma mais completa a vida do músico que marcou gerações.

Se fosse preciso escolher, ficaria com a ficção de “Faroeste Caboclo” à ficção-quase-real de “Somos Tão Jovens”.

A divina maravilhosa na Virada

Gal Costa canta na Virada -  Daia Oliver/ R7

Não tenho dúvidas de que se ouvisse o show de Gal Costa em um ambiente fechado aproveitaria muito mais. Mas quem disse que eu não desfrutei? Durante apresentação na Virada Cultural, no último sábado (18), Gal mostrou à imensa multidão seu show “Recanto”.

A nova turnê da cantora contempla alguns sucessos de sua carreira com as músicas novas do disco produzido por Caetano Veloso, assim como o show.

Pra começar a animar o público, Gal cantou “Divino Maravilhoso”, um dos hinos do Tropicalismo. “São Paulo é minha cidade também.  A cidade onde tudo começou, onde o Tropicalismo começou”, disse.

Depois, vieram “Baby”, “Vapor Barato”, “Meu Bem, Meu Mal”, “Folhetim”, “Barato Total”,  misturadas às novas canções. Em “Um Dia de Domingo”, que interpretava com Tim Maia, Gal conseguiu imitar o timbre de voz do cantor já falecido e seus trejeitos. O público foi ao delírio.

Com tanta presença de palco, tanta volúpia e sensualidade em um vestido preto, o show de Gal Costa sagrou-se como um dos melhores da Virada deste ano.

Antes de ir embora, porém, ela deixou todos com gostinho de “cravo e canela” na boca cantando o tema da minissérie “Gabriela”.

Ousado o desafio de adaptar um show feito para lugares fechados para ao ar livre, sem abrir mão da banda maravilhosa, que conta com Pedro Baby. Uma ousadia que deu certo. Mas tenho a certeza de que se estivesse em um lugar fechado ouviria muito mais as nuances do show delicado de Gal. A beleza ficou por conta da voz, repertório e do ícone.

Um uruguaio que ama o Brasil

Jorge Drexler - Priscila Tieppo

A admiração que sobra em Jorge Drexler à cultura brasileira, principalmente a música, salta aos olhos. Brasileiros que pouco conhecem o próprio quintal jamais entenderiam um uruguaio se apaixonar tanto por cantores e compositores do nosso país. Fato é que temos um dos cenários culturais mais interessantes do mundo. E Drexler sabe disso.

Quase brasileiro. Fala português com clareza, apesar de escorregar com expressões como “mais grande” e é fã de Caetano Veloso e Arnaldo Antunes. Em suas canções já fez referências aos dois brasileiros e já citou cidades como Salvador.

Ele era o artista estrangeiro perfeito para fechar a Virada Cultural e o fez. Entrou no palco para passar o som e diante da animação do público teve de explicar que era apenas “um treino para o concerto”.

Ao voltar, às 18h em ponto, fez de fato o que todos esperavam: cantou, dançou, conversou, se empolgou e, no final, concedeu duas voltas ao palco.

No repertório incluiu três canções de Caetano: “Sampa”, “Fora da Ordem” e “Dom de Iludir”. De Arnaldo Antunes, do Titãs, ficou com “Disneylândia”, que faz parte de um dos seus discos.

Homenagens feitas ao Brasil, o resto foi uma mistura de todos os discos do cantor. Entre os hits, estavam “Amar la trama”, “Deseo”, “Todo se Transforma”, “Sea”, “Al otro lado del rio”, entre outras.

Drexler parecia realmente grato por poder cantar para uma multidão ao ar livre e a todo momento agradecia a oportunidade. Chamou os paulistas de “queridos” diversas vezes e terminou o show ajoelhado no palco reverenciando os fãs. Lindo.

Mas, antes, cantou sua gratidão com “Me Haces Bien”, dizendo que o público paulistano fazia muito bem a ele. A música foi improvisada em um bis improvisado. Após já ter voltado, o cantor foi convidado pelo locutor do palco Júlio Prestes a retornar ao palco. “Não tinha preparado nada para agora”, disse, encabulado. Mas cantou para a alegria dos que não arredavam o pé do lugar.

É, sem dúvida, um dos cantores mais talentosos da América Latina. Que ele volte logo para nos visitar.  Porque ele nos faz muito bem também.

Viciei em Novos Baianos

Divulgação

Divulgação

Um pouco tardia esta confissão. Mas aconteceu esses dias: eu viciei no disco “Acabou Chorare” (1972), dos Novos Baianos. Ícone nos tempos da Tropicália, o grupo ganhou força no cenário da MPB misturando bossa nova, rock, frevo, baião, samba e afoxé. Tipicamente brasileiro, com as nuances que identificam o Brasil de norte a sul.

Movimento de contracultura, essencialmente baiano, como o nome. Formado por Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Paulinho Boca de Cantor, Dadi e Luiz Galvão, o grupo iniciou os trabalhos em 1969. Baby era a única mulher e não-baiana do time.

Não vou me estender sobre a história do grupo. Estou aqui divagando nas músicas deste disco que se tornou meu vício.

Me lembrei do dia em que vi o trio elétrico de Moraes Moreira em Salvador. Ver o trio dele é uma obrigação até para o mais “axezeiro” dos turistas. Moraes, que jamais abandonou a guitarra elétrica, é o autor de “Lá vem o Brasil descendo a Ladeira”. Esta canção foi feita num momento “relax” do cantor (podemos dizer assim) que viu no andar de uma mulata descendo a ladeira o Brasil.

Mas voltando ao disco, que foi o segundo lançado pelo grupo, a música de abertura é “Brasil Pandeiro” – até hoje cantada em homenagem ao nosso país. Depois dela, uma sucessão de hits: Preta Pretinha, Tinindo Trincando, A Menina Dança e Besta é Tu.

Em votação feita com especialistas, em 2007 a revista “Rolling Stone” elegeu este disco como “o maior da música brasileira de todos os tempos”.

Mas entre as preferidas, destaco “Mistério do Planeta”:

O refúgio

Para fazer parte do grupo, além de tocar junto, eles deveriam morar sob o mesmo teto. Os Novos Baianos era uma filosofia, way of life.

Dá para dizer que cada um dos “lados” do LP “Acabou Chorare” foi arquitetado em endereços distintos. O A no apartamento em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde os Novos Baianos aquartelavam-se; e o B no sítio-comuna alugado em Jacarepaguá, Zona Oeste.

Na plaqueta em formato de bandeira do Brasil afixada na porteira do sítio, onde se deveria ler “Ordem e Progresso” estava escrito “Cantinho do Vovô”. De 1971 a 1975, o combo se resguardou das agruras militares no retiro que também foi lar, estúdio e campo de futebol – três das coisas que mais interessavam a todos ali conjugados.

No Cantinho do Vovô, o samba cinco estrelas dos Novos Baianos pulsava suave, contente e distorcidamente roqueiro.

Tendo João Gilberto como padrinho, o nome do disco é uma expressão usada pela filha do cantor baiano, Bebel Gilberto, que após cair soltou esta frase para tranquilizar o pai: “Não machucou papai, Acabou Chorare.”

A madrinha Baby Consuelo lê o significado da frase vinculado ao cerco político repressor daqueles dias. “Esotericamente saídas da boca de uma criança, tais palavras nos mostravam que chegara a hora de acabar com o choro. Tínhamos lacrimejado demais. Queríamos o Brasil alegre de volta”, metaforizou Baby, em entrevista à “Rolling Stone”.

As letras feitas sob efeitos de LSD e outras drogas marcaram o estilo hippie do grupo. As músicas podiam ser criadas embaixo de uma árvore, em um palco improvisado no meio de uma sala e tinham o mesmo efeito: exaltar a cultura brasileira e misturar ritmos que soavam bem aos ouvidos jovens daquela época de repressão.

Atualmente, os músicos principais tocam suas carreiras-solo. Baby e Pepeu, que foram casados por muitos anos e tiveram filhas (às quais deram nomes estranhos), tornaram-se evangélicos. Moraes Moreira, o primeiro a sair do grupo para cantar sozinho, escreveu um livro sobre a história dos Novos Baianos e segue relembrando hits daquela época em seus shows.

Bora ouvir o disco?