Duas vezes Renato Russo

Cena de Faroeste Caboclo - Divulgação

Cena de Faroeste Caboclo – Divulgação

Acabou o filme e lá estavam os espectadores ainda sentados, sem fazer menção de sair, ouvindo e cantando a música que inspirou o longa. Os créditos vão subindo e é como se a música fosse um resumo do filme. Ou o filme foi um resumo da música.

Fato é que a cada cena de Faroeste Caboclo, que estreou esta semana nos cinemas nacionais, a música “cantava” na cabeça.

A adaptação, feita por René Sampaio, fã incondicional de Renato Russo e da Legião Urbana, destrinchou uma das músicas mais longas do roqueiro. Quando ela foi lançada, difícil era encontrar alguém que não a tivesse decorado.

A história ia formando imagens, à medida que a saga de João de Santo Cristo era contada. Agora, as imagens podem ser vistas no cinema.

Tirando as “organizações cronológicas” que não são seguidas e a inclusão de personagens (essenciais para o desenrolar da história) a adaptação é bem fiel.

João (Fabrício Boliveira) chega à Brasília “vendo as luzes de Natal” e quer mudar de vida. Conhece Maria Lúcia (Isis Valverde) e “dizia que queria se casar”. Jeremias (Felipe Abib), “o bandido traidor”, casa-se com a mocinha enquanto João está na prisão.

A história, apesar de ter sido escrita em 1979 por Renato Russo – que dizia querer ter a sua “Hurricane” (canção de Bob Dylan que também conta uma história) -, segue atual com a questão do tráfico de drogas, mesmo sendo ambientada na Brasília dos anos 80.

A fotografia do filme é perfeita. Além, claro, da bela interpretação dos atores, sem exageros e bastante verossímil. Felipe Abib é um dos atores que estão despontando na mídia artística. Em breve, ele deve ter seu trabalho reconhecido. Atualmente, participa da série “Tapas e Beijos”, na Globo, para o qual deu um “ar novo”.

E as pessoas no cinema continuavam a cantar a música do filme que acabavam de ver. “Você viu? João dá cinco tiros em Jeremias, como na música”, alguém comentou. E as semelhanças vinham a cada um dos 168 versos escritos por um dos maiores compositores do rock.

A história pela metade

Thiago Mendonça interpreta Renato Russo - Divulgação

Thiago Mendonça interpreta Renato Russo – Divulgação

“Quando fica bom, acaba”. Esse é o comentário que mais ouvi sobre “Somos Tão Jovens”, filme que retrata a vida de Renato Russo (Thiago Mendonça) e a formação da banda Legião Urbana.

O comentário foi comprovado. Partes essenciais da vida do compositor e vocalista são “esquecidas”. O recorte feito na vida do músico – apenas os anos 80 em Brasília e o início do sucesso – talvez não tenha sido o melhor para retratar Renato.

A doença que o deixa de cama por vários meses e o faz estudar muito está lá. Quando foi professor de inglês, a descoberta da sexualidade, gostar de meninos e meninas, a formação do Aborto Elétrico e o início de uma geração roqueira em Brasília também. Mas os primeiros romances homossexuais são apenas insinuados.

A história mostra muito da arrogância do cantor. Essa característica sempre foi clara em Renato. Do tipo que não leva desaforo pra casa e que, sim, tem sempre uma resposta a toda e qualquer crítica. Mas, também, a determinação de ter uma banda, a vontade de colocar para fora as angústias dos jovens da época também são fortes nas cenas.

Parte marcante do filme fica por conta da amizade dele com Ana (Laila Zaid), com quem mantém uma relação “colorida” e confidente.

Ponto para a preparação e interpretação de Thiago Mendonça que consegue transmitir até os trejeitos do cantor e ficou bastante parecido fisicamente com ele.

Porém, há de se fazer uma crítica: uma história tão rica quanto a de Renato Russo merecia um registro melhor, algo no nível do filme dedicado a Cazuza, vivido lindamente por Daniel Oliveira.

Apesar de “Cazuza – O Tempo não Para” ter ocultado o romance do cantor com Ney Matogrosso, o registro ainda é mais marcante do que o de Renato.

Espero que algum outro filme possa retratar de forma mais completa a vida do músico que marcou gerações.

Se fosse preciso escolher, ficaria com a ficção de “Faroeste Caboclo” à ficção-quase-real de “Somos Tão Jovens”.

A divina maravilhosa na Virada

Gal Costa canta na Virada -  Daia Oliver/ R7

Não tenho dúvidas de que se ouvisse o show de Gal Costa em um ambiente fechado aproveitaria muito mais. Mas quem disse que eu não desfrutei? Durante apresentação na Virada Cultural, no último sábado (18), Gal mostrou à imensa multidão seu show “Recanto”.

A nova turnê da cantora contempla alguns sucessos de sua carreira com as músicas novas do disco produzido por Caetano Veloso, assim como o show.

Pra começar a animar o público, Gal cantou “Divino Maravilhoso”, um dos hinos do Tropicalismo. “São Paulo é minha cidade também.  A cidade onde tudo começou, onde o Tropicalismo começou”, disse.

Depois, vieram “Baby”, “Vapor Barato”, “Meu Bem, Meu Mal”, “Folhetim”, “Barato Total”,  misturadas às novas canções. Em “Um Dia de Domingo”, que interpretava com Tim Maia, Gal conseguiu imitar o timbre de voz do cantor já falecido e seus trejeitos. O público foi ao delírio.

Com tanta presença de palco, tanta volúpia e sensualidade em um vestido preto, o show de Gal Costa sagrou-se como um dos melhores da Virada deste ano.

Antes de ir embora, porém, ela deixou todos com gostinho de “cravo e canela” na boca cantando o tema da minissérie “Gabriela”.

Ousado o desafio de adaptar um show feito para lugares fechados para ao ar livre, sem abrir mão da banda maravilhosa, que conta com Pedro Baby. Uma ousadia que deu certo. Mas tenho a certeza de que se estivesse em um lugar fechado ouviria muito mais as nuances do show delicado de Gal. A beleza ficou por conta da voz, repertório e do ícone.

Um uruguaio que ama o Brasil

Jorge Drexler - Priscila Tieppo

A admiração que sobra em Jorge Drexler à cultura brasileira, principalmente a música, salta aos olhos. Brasileiros que pouco conhecem o próprio quintal jamais entenderiam um uruguaio se apaixonar tanto por cantores e compositores do nosso país. Fato é que temos um dos cenários culturais mais interessantes do mundo. E Drexler sabe disso.

Quase brasileiro. Fala português com clareza, apesar de escorregar com expressões como “mais grande” e é fã de Caetano Veloso e Arnaldo Antunes. Em suas canções já fez referências aos dois brasileiros e já citou cidades como Salvador.

Ele era o artista estrangeiro perfeito para fechar a Virada Cultural e o fez. Entrou no palco para passar o som e diante da animação do público teve de explicar que era apenas “um treino para o concerto”.

Ao voltar, às 18h em ponto, fez de fato o que todos esperavam: cantou, dançou, conversou, se empolgou e, no final, concedeu duas voltas ao palco.

No repertório incluiu três canções de Caetano: “Sampa”, “Fora da Ordem” e “Dom de Iludir”. De Arnaldo Antunes, do Titãs, ficou com “Disneylândia”, que faz parte de um dos seus discos.

Homenagens feitas ao Brasil, o resto foi uma mistura de todos os discos do cantor. Entre os hits, estavam “Amar la trama”, “Deseo”, “Todo se Transforma”, “Sea”, “Al otro lado del rio”, entre outras.

Drexler parecia realmente grato por poder cantar para uma multidão ao ar livre e a todo momento agradecia a oportunidade. Chamou os paulistas de “queridos” diversas vezes e terminou o show ajoelhado no palco reverenciando os fãs. Lindo.

Mas, antes, cantou sua gratidão com “Me Haces Bien”, dizendo que o público paulistano fazia muito bem a ele. A música foi improvisada em um bis improvisado. Após já ter voltado, o cantor foi convidado pelo locutor do palco Júlio Prestes a retornar ao palco. “Não tinha preparado nada para agora”, disse, encabulado. Mas cantou para a alegria dos que não arredavam o pé do lugar.

É, sem dúvida, um dos cantores mais talentosos da América Latina. Que ele volte logo para nos visitar.  Porque ele nos faz muito bem também.

Viciei em Novos Baianos

Divulgação

Divulgação

Um pouco tardia esta confissão. Mas aconteceu esses dias: eu viciei no disco “Acabou Chorare” (1972), dos Novos Baianos. Ícone nos tempos da Tropicália, o grupo ganhou força no cenário da MPB misturando bossa nova, rock, frevo, baião, samba e afoxé. Tipicamente brasileiro, com as nuances que identificam o Brasil de norte a sul.

Movimento de contracultura, essencialmente baiano, como o nome. Formado por Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Paulinho Boca de Cantor, Dadi e Luiz Galvão, o grupo iniciou os trabalhos em 1969. Baby era a única mulher e não-baiana do time.

Não vou me estender sobre a história do grupo. Estou aqui divagando nas músicas deste disco que se tornou meu vício.

Me lembrei do dia em que vi o trio elétrico de Moraes Moreira em Salvador. Ver o trio dele é uma obrigação até para o mais “axezeiro” dos turistas. Moraes, que jamais abandonou a guitarra elétrica, é o autor de “Lá vem o Brasil descendo a Ladeira”. Esta canção foi feita num momento “relax” do cantor (podemos dizer assim) que viu no andar de uma mulata descendo a ladeira o Brasil.

Mas voltando ao disco, que foi o segundo lançado pelo grupo, a música de abertura é “Brasil Pandeiro” – até hoje cantada em homenagem ao nosso país. Depois dela, uma sucessão de hits: Preta Pretinha, Tinindo Trincando, A Menina Dança e Besta é Tu.

Em votação feita com especialistas, em 2007 a revista “Rolling Stone” elegeu este disco como “o maior da música brasileira de todos os tempos”.

Mas entre as preferidas, destaco “Mistério do Planeta”:

O refúgio

Para fazer parte do grupo, além de tocar junto, eles deveriam morar sob o mesmo teto. Os Novos Baianos era uma filosofia, way of life.

Dá para dizer que cada um dos “lados” do LP “Acabou Chorare” foi arquitetado em endereços distintos. O A no apartamento em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde os Novos Baianos aquartelavam-se; e o B no sítio-comuna alugado em Jacarepaguá, Zona Oeste.

Na plaqueta em formato de bandeira do Brasil afixada na porteira do sítio, onde se deveria ler “Ordem e Progresso” estava escrito “Cantinho do Vovô”. De 1971 a 1975, o combo se resguardou das agruras militares no retiro que também foi lar, estúdio e campo de futebol – três das coisas que mais interessavam a todos ali conjugados.

No Cantinho do Vovô, o samba cinco estrelas dos Novos Baianos pulsava suave, contente e distorcidamente roqueiro.

Tendo João Gilberto como padrinho, o nome do disco é uma expressão usada pela filha do cantor baiano, Bebel Gilberto, que após cair soltou esta frase para tranquilizar o pai: “Não machucou papai, Acabou Chorare.”

A madrinha Baby Consuelo lê o significado da frase vinculado ao cerco político repressor daqueles dias. “Esotericamente saídas da boca de uma criança, tais palavras nos mostravam que chegara a hora de acabar com o choro. Tínhamos lacrimejado demais. Queríamos o Brasil alegre de volta”, metaforizou Baby, em entrevista à “Rolling Stone”.

As letras feitas sob efeitos de LSD e outras drogas marcaram o estilo hippie do grupo. As músicas podiam ser criadas embaixo de uma árvore, em um palco improvisado no meio de uma sala e tinham o mesmo efeito: exaltar a cultura brasileira e misturar ritmos que soavam bem aos ouvidos jovens daquela época de repressão.

Atualmente, os músicos principais tocam suas carreiras-solo. Baby e Pepeu, que foram casados por muitos anos e tiveram filhas (às quais deram nomes estranhos), tornaram-se evangélicos. Moraes Moreira, o primeiro a sair do grupo para cantar sozinho, escreveu um livro sobre a história dos Novos Baianos e segue relembrando hits daquela época em seus shows.

Bora ouvir o disco?

Clara Nunes: a guerreira

Clara Nunes - Reprodução

Clara Nunes – Reprodução

Ela pisava no palco descalça, mas não sem antes rezar. Toda de branco, os cabelos soltos, armados e sempre com flores na cabeça, Clara Nunes era só luz. Segundo os amigos e fãs daquela época, onde ela chegava preenchia o ambiente.

“Claridade vivia cada minuto intensamente, estava sempre sorrindo”, contou Alcione, referindo-se ao apelido e nome de um dos discos da cantora.

A mineira de Paraopeba, a moça brejeira do interior, era tecelã quando revelou seu talento ao mundo. Venceu um concurso para cantores e ganhou um contrato com a rádio Inconfidência, em Belo Horizonte. Aí começou sua carreira profissional, na década de 60.

Se vocês querem saber quem eu sou
Eu sou a tal mineira
Filha de Angola, de Ketu e Nagô
Não sou de brincadeira
Canto pelos sete cantos
Não temo quebrantos
Porque eu sou guerreira
Dentro do samba eu nasci,
Me criei, me converti
E ninguém vai tombar a minha bandeira.”

A música “Guerreira”, que dava nome ao disco lançado em 1978, era uma descrição de Clara. Ela dizia em suas entrevistas que não costumava cantar o que não acreditava. Tendo sua fé no candomblé, a mineirinha se tornava uma entidade no palco.

Os clipes feitos para suas músicas sempre a mostravam na natureza, perto do água e da mata – elementos importantes no candomblé.

Com um sucesso fenomenal, Clara tinha os discos lançados com 500 mil cópias já vendidas e era considerada a maior voz feminina no Brasil. Portelense, a cantora aquecia as baterias da escola carioca e chegou a gravar diversas músicas com a Velha Guarda da Portela.

Discos como “Claridade” (1975), “Canto das Três Raças” (1976), “Guerreira” (1978) e “Brasil Mestiço” (1980) ultrapassaram a marca de 1 milhão de cópias vendidas.

Ela transitava pelo romântico e pelo samba, e foram os ritmos afrobrasileiros que lhe deram a fama. As músicas de Clara são indispensáveis até hoje em qualquer roda de samba de respeito, de raiz.

Gravou canções de Cartola (“Alvorada no Morro”), Nelson Cavaquinho (“Juízo Final”), Candeia (“Conto de Areia”), Paulinho da Viola (“Coração Leviano”), João Nogueira (“Guerreira”), Dona Ivone Lara (“Alvorecer”) e Chico Buarque (“Morena de Angola”), entre outros.

Em 2 de abril de 1983, a mineirinha deixou este mundo após quase um mês internada na UTI de um hospital no Rio de Janeiro. Ela foi acometida por um choque anafilático causado por alergia a um componente da anestesia que tomou. A cantora se preparava para fazer uma cirurgia para retirada de varizes.

A poucos meses de completar 40 anos, Clara morreu. Era sábado de aleluia.

Seu corpo foi velado na quadra da Portela, diante de uma multidão de 50 mil pessoas. Clara também foi tema do enredo em dois carnavais, em 1984 e em 2012.

Hoje, 30 anos depois, a cantora ainda é bastante lembrada e homenageiada, provando que sua música ainda atravessa gerações.

Uma das homenagens mais recentes é o DVD “Ser de Luz”, da cantora baiana Mariene de Castro, lançado no último domingo em São Paulo. O nome da obra é de uma canção feita para Clara depois de sua morte.

Mariene, fã da cantora, reuniu os sucessos da obra de Clara, as pastoras da Portela, se vestiu de branco, colocou sua voz e sua personalidade nas músicas para reverenciar a guerreira. E o fez muito bem.

Caros Hermanos: mucho gusto!

attaque-77

Divulgação

“Para nosostros es muy raro ver ustedes tranquilitos, sin bailar”. Fui assim que Mariano Martinez, vocalista da banda Attaque 77, descreveu como anda encarando a turnê com o repertório do DVD acústico do grupo argentino de rock, durante apresentação no Sesc Vila Mariana, no último domingo (10), em São Paulo.

O novo trabalho reúne sucessos da banda, considerada uma das melhores do gênero no país vizinho. Não é para menos. Com influências de bandas como Ramones e Sex Pistols, Attaque já está há 25 anos na estrada e tem 18 álbuns lançados. Em suas canções há referências do punk, pop e ska.

O grupo mostrou que tem um fãs fiéis no Brasil. No primeiro dia de venda de ingressos para a apresentação única, metade das cadeiras do teatro já estava vendida.

Os hits eram cantados em coro e, às vezes, estar sentado em para vê-los soava estranho. Com bandeiras da Argentina e do Chile, estrangeiros que moram em São Paulo puderam sentir um pouquinho mais perto de seus países.

No setlist, os sucessos “Arranca Corazones”, “Ojos de Perros”, “Cual es el Precio”, “Beatle” e “Setentista”, embalaram o público.

Nos intervalos, o público fazia questão de agradecer ao belo espetáculo, de ótima qualidade sonora, com uma canção bastante utilizada nos estádios argentinos e em outros países sul-americanos, como Paraguai. No lugar do nome do time, o nome da banda: “Olê, olê, olê, olê, olê, olá, olê, olê, olê, cada dia te quiero más, soy, soy de Attaque, es un sentimiento, no puedo parar”. A cada entoação dessas, a banda parava, sorria, mostrando-se grata ao carinho.

Ao final do show, foram necessárias dois retornos aos palcos, já que o público não queria ir embora. Na penúltima, duas músicas foram cantadas e na última vez que voltaram, fizeram uma capela com o público e se despediram deixando saudades.

Mas, antes, uma homenagem ao Brasil. A banda cantou “Perfeição”, da Legião Urbana, em versão em espanhol para encerrar. Além de gravar esta canção de Renato Russo, que apareceu ao fundo no telão durante a apresentação, o grupo também já regravou “Amigo”, de Roberto Carlos.

Caros Hermanos

O show de Attaque faz parte de um mês todo dedicado às músicas e filmes argentinos. O nome da mostra, realizada no Sesc Vila Mariana, é “Caros Hermanos”, e termina no dia 30/3, sábado, com a exibição do belíssimo filme de Gustavo Taretto “Medianeras” (2011).

Além de Attaque, pude prestigiar o show da banda de tango eletrônico Otros Aires, na última sexta (15). O grupo, formado em 2003, mescla tangos clássicos e milongas com melodias modernas. Vale a pena conhecer.

Mas apesar de todo a perfeição da programação e o fato de proporcionar conhecimento sobre a cultura argentina, que é muito rica, uma falha acabou decepcionando o público. Quem tinha ingresso para ver o cantor Kevin Johansen não o fez na sexta, dia 8. Por conta da forte chuva que caiu em São Paulo, o Sesc ficou sem energia elétrica e cancelou a apresentação, não remarcando um outra data.

A devolução do dinheiro foi feita, mas não ter visto um dos maiores cantores da atualidade daquele país deixou um gostinho amargo na boca.

Mais informações sobre a mostra, aqui: https://www.facebook.com/SESCVilaMariana

Milton Nascimento: um movimento

Milton Nascimento - Divulgação

Milton Nascimento – Divulgação

A primeira vez que ouvi falar de Milton Nascimento eu era criança ainda. Lembro-me que o citaram como o dono da voz mais bonita do Brasil. Lembro-me que contaram que Elis Regina dizia que se Deus tivesse uma voz, seria a de Milton. Eu estava muito jovem ainda pra entender a importância e o peso da voz dele.

Milton Nascimento é daqueles cantores que a maturidade traz o gosto. Eu cresci, fui ler sobre música e (re)descobri Milton. Talvez tenha sido com a música “Amigo”, citada sempre como a preferida de Ayrton Senna (e tocada muitas vezes após a morte do piloto de Fórmula 1), não me lembro.

A voz me tocou mais tarde, em estudos sobre a Ditadura Militar, outro tema pelo qual me interesso muito. Veio com a canção “Nada será como antes”, que fez parte do disco “O Milagre dos Peixes” (1973), praticamente todo censurado na época.

Depois desta censura, Milton passou a se apresentar em faculdades públicas que resistiam contra a repressão militar.

Sempre quieto, sempre na sua. Voz e letras cortantes. Milton é um movimento completo, como disse Caetano Veloso em uma entrevista. Movimento completo e de qualidade. Tanta qualidade, que sua fama ultrapassou fronteiras. O mineirinho já fez show nos quatro cantos do planeta e recebe elogios de figuras internacionais importantes até hoje.

Mas o que eu quero dizer é que nada do meu gosto, nada que tenha lido sobre se compara ao fato de estar recentemente onde o Clube da Esquina, movimento musical mineiro que tomou conta do Brasil, nasceu.

Ali, no bairro boêmio de Santa Tereza, em Belo Horizonte, tudo faz sentido. Muitas bandas e cantores mineiros se formaram ali, nas esquinas daquele lugar. E eu, admirada ao descobrir que tudo começou ali, passei a gostar muito do lugar. Sou uma mineirinha de coração. Quem me conhece, sabe.

O Clube da Esquina, com inspirações do rock dos anos 60/70, nasce com Milton e os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô). Aos fãs dos Beatles e The Platters novos integrantes vieram juntar-se: Flávio Venturini, Vermelho, Tavinho MouraToninho HortaBeto Guedes e o letrista Fernando Brant. O nome foi ideia de Márcio, que sempre ouvia a mãe perguntar dos filhos e alguém responder: “estão ali na esquina tocando”.

Em 1972, a EMI gravou o primeiro LP, “Clube da Esquina”, apresentando um grupo de jovens que chamou a atenção pelas composições engajadas, a miscelânea de sons e riqueza poética. O cantor e compositor Tavito faz referência às saudades do Clube da Esquina na música Rua Ramalhete, local onde eles se reuniam para tocar.

Ali no bairro de Santa Tereza, bem perto à praça, há um bar que se chama Bolão. Este é o bar onde os cantores da região se reuniam. Não à toa, as paredes do boteco são decoradas com inúmeros discos de ouro e de platina dos artistas, que levaram os quadros ao local como forma de agradecimento. Ali estão quadros de Lô Borges, que assim como Milton seguiu carreira solo depois do Clube.

Santa Tereza é um bairro que lembra e inspira música. E que lembra muito o Clube da Esquina. Por isso, sua importância no cenário cultural mineiro. Santa Tereza cheira lembranças, tem o cheiro doce dos tempos de qualidade musical.

Milton, menino

Quando criança, Milton morava em Três Pontas, interior de Minas. Perdeu a mãe muito cedo e desde pequeno teve de aprender a se virar. Mostrava habilidade com instrumentos como a gaita e, aos 13 anos, ganhou seu primeiro violão.

Sozinho, sempre quieto, ele se aproxima dos irmãos Borges e, ao chegar à fase adulta, vai encontrá-los em Belo Horizonte, onde se torna letrista e cantor do que viria a ser o Clube da Esquina.

Milton Nascimento é a voz masculina mais bonita do Brasil. E, além disso, traz em suas obras espaçadas, sem a pressão de gravadoras ou sem seguir movimentos comerciais, o melhor da música brasileira.

Para encerrar, conto aqui a emoção do reencontro com a obra de Milton, o Bituca. Foi ao ouvir por completo o disco “Minas” (1975). Uma das obras mais aclamadas do cantor e que traz as  canções “Fé Cega Faca Amolada”, “Beijo Partido” e “Ponta de Areia”, entre outras. Estas três estão entre as minhas preferidas dele.

Na lista, acrescento duas mais recentes: “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” (2002) e “Outro Lugar” (2002), ambas do disco “Pietá”, cujo show foi considerado o melhor daquele ano. Mas é impossível limitar a lista a cinco canções.

“Bola de meia, bola de gude”, “Certas Canções”, “Caçador de Mim”, “Maria, Maria”, “Travessia” e tantas outras clássicas.

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