Apontar sem provas

Divulgação

Divulgação

Ontem, saí do cinema pensativa e fazendo ligações com a minha profissão, o jornalismo. Fazia tempo que isso não acontecia. Mas vi “A Caça” e fiquei atordoada. Não há jornalistas no filme, mas a trama me lembrou muito uma antiga pedra no sapato da profissão: o caso da escola Base, localizada na zona sul de São Paulo.

Mads Mikkelsen, ator dinamarquês que levou o prêmio de melhor ator do Festival de Cannes por este longa, interpreta (lindamente) um bedel de uma escola infantil que é acusado de abuso sexual no seu local de trabalho.

A trama é tão bem construída que consegue mostrar os lados de todas as pessoas envolvidas nesta situação sem julgamentos e, também, as prováveis reações que cada uma, do seu lado da história, teria.

Por que isto me lembrou a escola Base? Bem, naquela ocasião, há cerca de 20 anos, foi dada voz às acusações e nunca a quem estava sendo acusado. A família que administrava o colégio não teve como se defender. O mesmo acontece com Lucas, personagem principal de “A Caça”.

Muro da escola Base pichado após acusações

Muro da escola Base pichado após acusações

A imprensa, que deveria sempre se preocupar com o outro lado, e a população julgaram  o fato e condenaram a família da escola Base sem esperar pela Justiça. Resultado: por mais que depois ficou comprovado que eles não tinham culpa, a fama de culpados já estava disseminada. A escola foi fechada e depredada e os donos nunca mais se recuperaram. Ainda hoje eles sofrem com as doenças que todo este imbróglio causou.

No filme, a certeza de que as acusações contra Lucas deixarão marcas até o fim dos dias dele é clara.

Uma história muito bem construída que coloca em cheque o que julgamos verdade, apesar da falta de provas, e, além disso, a sede incessante de fazer justiça com as próprias mãos, inflamado pelo ódio.

Outro ponto que o filme deixa como reflexão é: devemos mesmo espalhar suposições ou acreditar em tudo que ouvimos sem dar chance ao outro lado?

Filme bom é aquele que te faz pensar por muitos dias depois de sair da sala de cinema. Recomendo.

Clara Nunes: a guerreira

Clara Nunes - Reprodução

Clara Nunes – Reprodução

Ela pisava no palco descalça, mas não sem antes rezar. Toda de branco, os cabelos soltos, armados e sempre com flores na cabeça, Clara Nunes era só luz. Segundo os amigos e fãs daquela época, onde ela chegava preenchia o ambiente.

“Claridade vivia cada minuto intensamente, estava sempre sorrindo”, contou Alcione, referindo-se ao apelido e nome de um dos discos da cantora.

A mineira de Paraopeba, a moça brejeira do interior, era tecelã quando revelou seu talento ao mundo. Venceu um concurso para cantores e ganhou um contrato com a rádio Inconfidência, em Belo Horizonte. Aí começou sua carreira profissional, na década de 60.

Se vocês querem saber quem eu sou
Eu sou a tal mineira
Filha de Angola, de Ketu e Nagô
Não sou de brincadeira
Canto pelos sete cantos
Não temo quebrantos
Porque eu sou guerreira
Dentro do samba eu nasci,
Me criei, me converti
E ninguém vai tombar a minha bandeira.”

A música “Guerreira”, que dava nome ao disco lançado em 1978, era uma descrição de Clara. Ela dizia em suas entrevistas que não costumava cantar o que não acreditava. Tendo sua fé no candomblé, a mineirinha se tornava uma entidade no palco.

Os clipes feitos para suas músicas sempre a mostravam na natureza, perto do água e da mata – elementos importantes no candomblé.

Com um sucesso fenomenal, Clara tinha os discos lançados com 500 mil cópias já vendidas e era considerada a maior voz feminina no Brasil. Portelense, a cantora aquecia as baterias da escola carioca e chegou a gravar diversas músicas com a Velha Guarda da Portela.

Discos como “Claridade” (1975), “Canto das Três Raças” (1976), “Guerreira” (1978) e “Brasil Mestiço” (1980) ultrapassaram a marca de 1 milhão de cópias vendidas.

Ela transitava pelo romântico e pelo samba, e foram os ritmos afrobrasileiros que lhe deram a fama. As músicas de Clara são indispensáveis até hoje em qualquer roda de samba de respeito, de raiz.

Gravou canções de Cartola (“Alvorada no Morro”), Nelson Cavaquinho (“Juízo Final”), Candeia (“Conto de Areia”), Paulinho da Viola (“Coração Leviano”), João Nogueira (“Guerreira”), Dona Ivone Lara (“Alvorecer”) e Chico Buarque (“Morena de Angola”), entre outros.

Em 2 de abril de 1983, a mineirinha deixou este mundo após quase um mês internada na UTI de um hospital no Rio de Janeiro. Ela foi acometida por um choque anafilático causado por alergia a um componente da anestesia que tomou. A cantora se preparava para fazer uma cirurgia para retirada de varizes.

A poucos meses de completar 40 anos, Clara morreu. Era sábado de aleluia.

Seu corpo foi velado na quadra da Portela, diante de uma multidão de 50 mil pessoas. Clara também foi tema do enredo em dois carnavais, em 1984 e em 2012.

Hoje, 30 anos depois, a cantora ainda é bastante lembrada e homenageiada, provando que sua música ainda atravessa gerações.

Uma das homenagens mais recentes é o DVD “Ser de Luz”, da cantora baiana Mariene de Castro, lançado no último domingo em São Paulo. O nome da obra é de uma canção feita para Clara depois de sua morte.

Mariene, fã da cantora, reuniu os sucessos da obra de Clara, as pastoras da Portela, se vestiu de branco, colocou sua voz e sua personalidade nas músicas para reverenciar a guerreira. E o fez muito bem.

Caros Hermanos: mucho gusto!

attaque-77

Divulgação

“Para nosostros es muy raro ver ustedes tranquilitos, sin bailar”. Fui assim que Mariano Martinez, vocalista da banda Attaque 77, descreveu como anda encarando a turnê com o repertório do DVD acústico do grupo argentino de rock, durante apresentação no Sesc Vila Mariana, no último domingo (10), em São Paulo.

O novo trabalho reúne sucessos da banda, considerada uma das melhores do gênero no país vizinho. Não é para menos. Com influências de bandas como Ramones e Sex Pistols, Attaque já está há 25 anos na estrada e tem 18 álbuns lançados. Em suas canções há referências do punk, pop e ska.

O grupo mostrou que tem um fãs fiéis no Brasil. No primeiro dia de venda de ingressos para a apresentação única, metade das cadeiras do teatro já estava vendida.

Os hits eram cantados em coro e, às vezes, estar sentado em para vê-los soava estranho. Com bandeiras da Argentina e do Chile, estrangeiros que moram em São Paulo puderam sentir um pouquinho mais perto de seus países.

No setlist, os sucessos “Arranca Corazones”, “Ojos de Perros”, “Cual es el Precio”, “Beatle” e “Setentista”, embalaram o público.

Nos intervalos, o público fazia questão de agradecer ao belo espetáculo, de ótima qualidade sonora, com uma canção bastante utilizada nos estádios argentinos e em outros países sul-americanos, como Paraguai. No lugar do nome do time, o nome da banda: “Olê, olê, olê, olê, olê, olá, olê, olê, olê, cada dia te quiero más, soy, soy de Attaque, es un sentimiento, no puedo parar”. A cada entoação dessas, a banda parava, sorria, mostrando-se grata ao carinho.

Ao final do show, foram necessárias dois retornos aos palcos, já que o público não queria ir embora. Na penúltima, duas músicas foram cantadas e na última vez que voltaram, fizeram uma capela com o público e se despediram deixando saudades.

Mas, antes, uma homenagem ao Brasil. A banda cantou “Perfeição”, da Legião Urbana, em versão em espanhol para encerrar. Além de gravar esta canção de Renato Russo, que apareceu ao fundo no telão durante a apresentação, o grupo também já regravou “Amigo”, de Roberto Carlos.

Caros Hermanos

O show de Attaque faz parte de um mês todo dedicado às músicas e filmes argentinos. O nome da mostra, realizada no Sesc Vila Mariana, é “Caros Hermanos”, e termina no dia 30/3, sábado, com a exibição do belíssimo filme de Gustavo Taretto “Medianeras” (2011).

Além de Attaque, pude prestigiar o show da banda de tango eletrônico Otros Aires, na última sexta (15). O grupo, formado em 2003, mescla tangos clássicos e milongas com melodias modernas. Vale a pena conhecer.

Mas apesar de todo a perfeição da programação e o fato de proporcionar conhecimento sobre a cultura argentina, que é muito rica, uma falha acabou decepcionando o público. Quem tinha ingresso para ver o cantor Kevin Johansen não o fez na sexta, dia 8. Por conta da forte chuva que caiu em São Paulo, o Sesc ficou sem energia elétrica e cancelou a apresentação, não remarcando um outra data.

A devolução do dinheiro foi feita, mas não ter visto um dos maiores cantores da atualidade daquele país deixou um gostinho amargo na boca.

Mais informações sobre a mostra, aqui: https://www.facebook.com/SESCVilaMariana

Onde os alternativos têm vez

Seu Alceu visto do buraco da fechadura - Divulgação

Seu Alceu visto do buraco da fechadura – Divulgação

Esta semana, li uma matéria sobre a distribuição da verba destinada à cultura por meio da (polêmica) lei Rouanet. No topo da lista, Claudia Leitte foi autorizada a captar R$ 5,8 milhões para a turnê de 12 shows que fará nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, entre maio e julho deste ano.

Esta lei serve para beneficiar, antes de tudo, empresas com descontos em impostos ao investir em projetos culturais. É um benefício às avessas. E o alternativo, onde tem vez? E os projetos culturais que realmente representariam e país e, assim, levariam conhecimento de fato?

Estava em meio a estas perguntas quando fui ao teatro neste sábado. Entrei. Era uma casa adaptada para projetos culturais. Linda. Lá dentro, uma exposição dos 10 anos de uma apresentação teatral que fez parte do Festival de Curitiba. Tudo bem se ninguém se lembrava daquele espetáculo. O ator e diretor Rodolfo Lima queria comemorar o que considera sua maior conquista profissional e cultural.

“Réquiem para um rapaz triste” é uma peça inspirada nos contos de Caio Fernando Abreu, seu escritor de cabeceira. Rodolfo cria Alice para falar com o público sobre a obra do autor gaúcho, homossexual assumido.

E, dentro desta mostra que ele criou, ainda há a peça “Bicha Oca”, em que divide o palco com João Pedro Matos, ator baiano que se jogou no projeto sem nenhuma rede de proteção. “Eu era ator de performances, não tinha fala, nem nada, e o Rodolfo me chamou para o projeto. No primeiro ensaio, ele já estava chorando logo na primeira cena e eu pensei: ‘Vou abraçar, o cara é bom'”, contou o ator.

“Bicha Oca” é uma peça inspirada nos contos homossexuais de Marcelino Freire. O título vem de uma frase do Seu Alceu, personagem central da peça: “Bicha devia nascer vazia, oca. (…) A gente devia ter um peru no lugar do coração, porque assim alguém te comia no Natal”, diz o amargurado senhor.

Alceu sofre com os casos mal resolvidos, com a solidão, com o amor que faltou em suas relações. Sofre com o fato de ter sempre que esconder sua homossexualidade em décadas passadas e reclama da atual condição gay, às vezes. Critica a Parada Gay, os beijos dados na rua, os amores escancarados. Talvez porque nunca tivesse tido um. “No meu tempo não tinha isso, não”, diz.

Ele descreve as relações com meninos desde a infância. Relata os casos e chega à conclusão de que o amor não era pra ele. Porém, aparece o Menino, assim mesmo, sem nome. Podia ser fruto da imaginação dele ou um fantasma das relações passadas, mas não. O Menino está lá, esperando Alceu.

Rodolfo se doa ao personagem muito além de ter mergulhado na obra de Freire. Constrói com a ajuda de amigos e com muita força de vontade sua própria história.

Foram cinco semanas intensas, apresentando três peças da sua mostra. Peças dirigidas e atuadas por ele em um dos quartos da casa antiga localizada na Vila Mariana, bairro de São Paulo. Ele ocupou uma casa por conta própria e escreveu sua história na parede dela, mostrou seu trabalho e foi ovacionado a cada apresentação.

Contou com a presença do escritor Lourenço Mutarelli e do próprio Marcelino Freire na plateia. “Fabiana Coza ia vir também, mas no dia acabou ficando presa no trânsito”, contou Rodolfo.

Pois é. Onde os alternativos têm vez? Apenas em suas próprias vontades, sem incentivos do governo. Em São Paulo, ainda temos uma gama de grupos teatrais que têm investimentos da prefeitura. Com o dinheiro destinado a cantores com nome forte na mídia, muitos projetos seriam beneficiados. E eu não falo de projetos amadores, falo de projetos bacanas, que têm o que dizer. Mas empresas querem atrelar sua marca a nomes conhecidos, garantindo assim, pela forma mais fácil, o retorno financeiro.

Quem está preocupado com a cultura do país? É a pergunta que fica.

Nota: infelizmente, a mostra de “Réquiem – 10 anos” chegou ao fim ontem. E eu também fiquei muito triste de não ter podido ver tudo.

Milton Nascimento: um movimento

Milton Nascimento - Divulgação

Milton Nascimento – Divulgação

A primeira vez que ouvi falar de Milton Nascimento eu era criança ainda. Lembro-me que o citaram como o dono da voz mais bonita do Brasil. Lembro-me que contaram que Elis Regina dizia que se Deus tivesse uma voz, seria a de Milton. Eu estava muito jovem ainda pra entender a importância e o peso da voz dele.

Milton Nascimento é daqueles cantores que a maturidade traz o gosto. Eu cresci, fui ler sobre música e (re)descobri Milton. Talvez tenha sido com a música “Amigo”, citada sempre como a preferida de Ayrton Senna (e tocada muitas vezes após a morte do piloto de Fórmula 1), não me lembro.

A voz me tocou mais tarde, em estudos sobre a Ditadura Militar, outro tema pelo qual me interesso muito. Veio com a canção “Nada será como antes”, que fez parte do disco “O Milagre dos Peixes” (1973), praticamente todo censurado na época.

Depois desta censura, Milton passou a se apresentar em faculdades públicas que resistiam contra a repressão militar.

Sempre quieto, sempre na sua. Voz e letras cortantes. Milton é um movimento completo, como disse Caetano Veloso em uma entrevista. Movimento completo e de qualidade. Tanta qualidade, que sua fama ultrapassou fronteiras. O mineirinho já fez show nos quatro cantos do planeta e recebe elogios de figuras internacionais importantes até hoje.

Mas o que eu quero dizer é que nada do meu gosto, nada que tenha lido sobre se compara ao fato de estar recentemente onde o Clube da Esquina, movimento musical mineiro que tomou conta do Brasil, nasceu.

Ali, no bairro boêmio de Santa Tereza, em Belo Horizonte, tudo faz sentido. Muitas bandas e cantores mineiros se formaram ali, nas esquinas daquele lugar. E eu, admirada ao descobrir que tudo começou ali, passei a gostar muito do lugar. Sou uma mineirinha de coração. Quem me conhece, sabe.

O Clube da Esquina, com inspirações do rock dos anos 60/70, nasce com Milton e os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô). Aos fãs dos Beatles e The Platters novos integrantes vieram juntar-se: Flávio Venturini, Vermelho, Tavinho MouraToninho HortaBeto Guedes e o letrista Fernando Brant. O nome foi ideia de Márcio, que sempre ouvia a mãe perguntar dos filhos e alguém responder: “estão ali na esquina tocando”.

Em 1972, a EMI gravou o primeiro LP, “Clube da Esquina”, apresentando um grupo de jovens que chamou a atenção pelas composições engajadas, a miscelânea de sons e riqueza poética. O cantor e compositor Tavito faz referência às saudades do Clube da Esquina na música Rua Ramalhete, local onde eles se reuniam para tocar.

Ali no bairro de Santa Tereza, bem perto à praça, há um bar que se chama Bolão. Este é o bar onde os cantores da região se reuniam. Não à toa, as paredes do boteco são decoradas com inúmeros discos de ouro e de platina dos artistas, que levaram os quadros ao local como forma de agradecimento. Ali estão quadros de Lô Borges, que assim como Milton seguiu carreira solo depois do Clube.

Santa Tereza é um bairro que lembra e inspira música. E que lembra muito o Clube da Esquina. Por isso, sua importância no cenário cultural mineiro. Santa Tereza cheira lembranças, tem o cheiro doce dos tempos de qualidade musical.

Milton, menino

Quando criança, Milton morava em Três Pontas, interior de Minas. Perdeu a mãe muito cedo e desde pequeno teve de aprender a se virar. Mostrava habilidade com instrumentos como a gaita e, aos 13 anos, ganhou seu primeiro violão.

Sozinho, sempre quieto, ele se aproxima dos irmãos Borges e, ao chegar à fase adulta, vai encontrá-los em Belo Horizonte, onde se torna letrista e cantor do que viria a ser o Clube da Esquina.

Milton Nascimento é a voz masculina mais bonita do Brasil. E, além disso, traz em suas obras espaçadas, sem a pressão de gravadoras ou sem seguir movimentos comerciais, o melhor da música brasileira.

Para encerrar, conto aqui a emoção do reencontro com a obra de Milton, o Bituca. Foi ao ouvir por completo o disco “Minas” (1975). Uma das obras mais aclamadas do cantor e que traz as  canções “Fé Cega Faca Amolada”, “Beijo Partido” e “Ponta de Areia”, entre outras. Estas três estão entre as minhas preferidas dele.

Na lista, acrescento duas mais recentes: “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” (2002) e “Outro Lugar” (2002), ambas do disco “Pietá”, cujo show foi considerado o melhor daquele ano. Mas é impossível limitar a lista a cinco canções.

“Bola de meia, bola de gude”, “Certas Canções”, “Caçador de Mim”, “Maria, Maria”, “Travessia” e tantas outras clássicas.

Há Miltons para todas as ocasiões e momentos da vida.

Cortante como Haneke

Cartaz de divulgação de "Amor"

Cartaz de divulgação de “Amor”

Você vai escolher. Se for assistir “Amor”, de Michael Haneke, a sensação pode ser de reflexão ou profunda tristeza. Ou os dois. Mas nada disso tirará do filme a beleza e os motivos que o levaram a ser uma dos filmes indicados ao Oscar, em cinco categorias. Além de já ter ganhado a Palma de Ouro em Cannes como melhor filme, e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

É dolorido, não dá pra negar. O filme trata da velhice e do mal de alzheimer. Um casal de idosos só tem um ao outro para contar. Ao desenvolver a doença, o marido resolve cuidar da mulher até o fim. E faz de tudo para que ela se sinta bem.

Com uma interpretação impecável, Emanuelle Riva, de 85 anos, é uma das indicadas do Oscar de melhor atriz. E realmente ela merece vencer.

Deixando as indicações à parte, é importante dizer que o filme é cru. O cenário é um apartamento e o cotidiano, a rotina mostrada no filme, é altamente explorada para escancarar a realidade dos idosos. Com câmeras fixas e sem tantas oscilações, o filme é seco e, talvez por isso, se torne tão real.

Em meio a tudo isso, uma filha alienada ao problema, que tenta convencer o pai a colocar a mulher em uma casa de repouso. Coisa que ele nega com uma frase em que expõe o egoísmo humano.

Envelhecer não é nada fácil. Mas ao ver o filme, se torna um pouco mais difícil. Haneke, diretor conhecido por suas obras cortantes – como “A Fita Branca (2009)” e “A Professora de Piano (2000)” -, não deixa a desejar neste filme: corta como lâmina.

A beleza do filme está, no entanto, no companheirismo do casal, no amor – palavra que dá nome ao filme e faz muito sentido. “Amor” não é fácil de ver, mas também pode ser muito bonito.

Cabra-cega de melanina acentuada

namibia

O cenário é um apartamento. Nele, ninguém pode entrar, e dele ninguém pode sair. Ao redor, os medos, os receios, incitados por uma lei de governo.

No filme “Cabra-Cega” (2004), a dupla enclausurada no recinto é comunista e luta pelo fim da ditadura. Havia sido instituído que todos os “subversivos”, que eram contra o governo, deveriam ser presos ou deportados.

Em “Namíbia, Não!”, peça dirigida por Lázaro Ramos, os dois rapazes são primos, enclausurados em seus apartamentos. “Se sairmos, eles nos mandam para a África”, diz um dos personagens, referindo-se a uma medida provisória de 2016, decretada no Brasil, que “pretende reparar o erro de ter tirado os africanos de seus países. Portanto, qualquer pessoa com traços de melanina acentuada devem voltar para o continente de origem”.

O texto, de Aldri Anunciação, e interpretado por Sérgio Menezes e Fernando Santana (no dia em que estive no teatro, o ator Flávio Bauraqui foi substituído), usa esta hipótese para discutir a questão do negro na sociedade brasileira.

Usando o humor e elementos reais, os diálogos são pautados pela história. Ora, tratando de temas atuais, ora buscando referências no passado. “A inesperada e surreal retirada de todos os melaninas acentuadas do Brasil em um tempo futuro, proposto pelo texto, tem como objetivo deslocar o pensamento da plateia e estimular sensações ligadas às questões sociais do nosso país”, diz Anunciação, o autor.

O isolamento, tanto dos que estariam indo à África, como dos dois primos presos dentro do apartamento (cuidadosamente decorado com peças brancas), é um canal que permeia o texto. Refere-se, também, ao isolamento do continente africano, pouco desenvolvido. “Por que os medicamentos que controlam a Aids não chegam até lá, primo?”, um deles questiona.

E refere-se ao isolamento econômico, social. “A economia prevê que deve haver um lugar onde a miséria tem de ser depositada”, explica um dos primos. As periferias, então, seriam isolamentos econômicos. Como a África vem sendo há anos.

E no meio de tantas “solidões”, há de se cruzar as clausuras das duas duplas: a comunista e a negra. Enquanto via um, me lembrava do outro. Me perguntava se o isolamento faz parte da sociedade que, muitas vezes, não convive bem com seu semelhante – vide exemplos históricos como a guerra contra os judeus.

E eis que um dos primos me chama à luz com a seguinte citação: “…e foi então que a pele de todos os seres humanos viraram espelhos….espelhos que contornavam detalhes dos nossos corpos, como um tecido que nos protegia de nós mesmos.”

Lutar por seus direitos ainda é algo digno. E ainda não alcançamos a democracia como ela é vendida por aí: em uma lata, em que o rótulo muda ao sabor do freguês. Quiçá a teremos um dia. Porque ainda estamos cegos.

A peça

Lázaro Ramos escolheu bem a forma de estrear no teatro adulto. Texto muito bom e perfeitamente interpretado pelos autores.

No meio da encenação, pode-se ouvir vozes conhecidas que interagem nas cenas. Wagner Moura, Pedro Paulo Rangel e do próprio Lázaro.

Luiz Miranda, interpretando Glória Maria, também participa da peça, que mistura recursos visuais e auditivos às cenas.

O texto foi escrito entre 2008 e 2009. Em 2010, foi agraciado com os prêmios de Funarte de Teatro Myriam Muniz e Fapex Teatro, por sua dramaturgia.

Serviço:

Namíbia, Não! – Teatro de Arena Eugênio Kusnet (SP)

Até 17/03 – R$ 20 (inteira)